“[...] Nessa noite parada sobrevivemos.
Ficou-nos a palavra, embora reprimida.
[...] Sobreviveremos.”
(Pedro Tierra)
Hamilton Pereira da Silva, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), foi preso em 10 de junho de 1972, quando tinha 24 anos,
em Anápolis, Goiás, cidade próxima a Brasília. Era acusado de subversão e de atentar contra a segurança nacional.
Submetido a longos períodos de tortura – aos quais ele costuma se referir como “interrogatórios” –,
permaneceu cerca de três meses incomunicável em quartéis do Exército, em Goiânia e em Brasília.
Foi transferido de Brasília para São Paulo, onde esteve detido de março a outubro de 1973 na Oban/DOI-CODI
(Operação Bandeirante/Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operação de Defesa Interna), na rua Thomaz Carvalhal
esquina com rua Tutóia, um dos mais tristemente famosos centros de tortura do regime militar.
Foi, então, enviado ao Presídio do Hipódromo, depois à Casa de Detenção no Carandiru, à Penitenciária do Estado de São Paulo e ao Presídio do Barro Branco.
Condenado inicialmente a 12 anos de reclusão – incluindo 1 ano de “medida de segurança detentiva” –, sua pena foi fixada, após recurso, em cinco anos.
Ele somente foi solto em 10 de março de 1977, após cumpri-la integralmente.
Desde 2003, Hamilton Pereira é presidente da Fundação Perseu Abramo, instituição vinculada ao Partido dos Trabalhadores.
Leitor e apreciador de literatura desde a adolescência em Porto Nacional (na época município de Goiás, hoje integra o estado do Tocantins),
Hamilton encontrou na poesia uma maneira de se manter vivo e lúcido na cadeia, uma forma de resistência e de possível comunicação com o mundo exterior.
Como registra Emiliano José, Hamilton tinha a capacidade de viver poesia, de mergulhar na tragédia e nas dores humanas depois de experimentá-las na própria carne
. Pedro Tierra até hoje se considera um sobrevivente, e o solo fundamental de sua sobrevivência foi a poesia – é até hoje.
“Era, então, a maneira de poder me olhar no espelho sem enlouquecer.” Era como se ele dissesse, de si para si: a humanidade não pode ser isso que estou vendo aqui.
Os versos construíam outra humanidade, ou o faziam divisar outra face do humano, não a do terror.
Seus poemas descrevem os duros momentos passados pelos presos políticos, as torturas, a morte de muitos deles e a luta pela vida dos que resistiram às sevícias.
São poemas em que palavras como “sangue”, “morte”, “luta” e “companheiro” aparecem com freqüência.
A homenagem a companheiros mortos é também uma tônica do livro – dos 60 poemas do volume 17 são desse tipo.
No começo, era muito difícil para ele escrever na cadeia. Além de toda a violência da prisão – não só física, mas também psicológica –,
não havia lápis nem papel. “Em um intervalo de interrogatório, me deixaram sozinho na sala. Vi que havia um lápis numa mesa.
Guardei-o comigo e o levei para a cela. Com ele escrevi meus primeiros poemas na prisão, em papel de maço de cigarros”, conta Hamilton.
Primeiro, tentou remeter os poemas para seus familiares e amigos por meio de cartas, mas como estas eram submetidas a censura antes de
serem enviadas, os poemas acabavam não chegando a seus destinatários
. Bolou então um estratagema. Nas cartas, dizia que havia lido em alguns livros que existiam na prisão certos poemas de um autor chamado
Pedro Tierra – provavelmente latino-americano – dos quais gostara muito, e os reproduzia nas cartas.
Nascia assim o pseudônimo com que assinaria os poemas e o livro que primeiro os reuniria, publicados quando o autor
ainda estava preso: Poemas do Povo da Noite.
A Hora dos Ferreiros
Quando o sol ferir
com punhais de fogo
e forja
a exata hora dos ferreiros,
varrei o pó da oficina
e a mansidão dos terreiros,
libertai a alma dos bronzes
e dos meninos
desatada em som
e nessa aguda solidão
que em ondas se apazigua
ponta de espinho antigo -
na carne
do coração.
Convocai enxadas,
foices, forcados, facões,
grades, cutelos, machados,
afeitos ao rigor da terra
e da procura
e, por fim, as mãos,
resignadas,
multiplicadas no cereal maduro.
Mãos talhadas em silêncio
e ternura,
que plantam a cada dia
sementes de liberdade
e colhem ao fim da tarde
celeiros de escravidão.
Esgotou-se o tempo de semear
e inventou-se a hora do martelo.
Retorcei na bigorna outros anelos
e a força incandescente deste mar
de ferros levantados.
Esgotou-se o tempo de consentir
e pôs-se a andar
a multidão dos saqueados
contra os cercados do medo.
Homens de terra
e relâmpago!
Convertei em fuzis vossos arados,
armai com farpas e pontas
a paz de vossas espigas
.
(fontr:Flamereon Maués -Revista Espaço Acadêmico nº8 Maio de 2005



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