Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

                *
NA ILHA POR VEZES HABITADA 
 
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, 
    manhãs e madrugadas em que não precisamos de 
    morrer. 
Então sabemos tudo do que foi e será. 
O mundo aparece explicado definitivamente e entra 
    em nós uma grande serenidade, e dizem-se as 
    palavras que a significam. 
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas 
    mãos. 
Com doçura. 
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a 
    vontade e os limites. 
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o 
    sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do 
    mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos 
    ossos dela. 
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres 
    como a água, a pedra e a raiz. 
Cada um de nós é por enquanto a vida. 
Isso nos baste.

*
PROTOPOEMA 
 
Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos 
    nós cegos, puxo um fio que me aparece solto. 
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os 
    dedos. 
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, 
    e tem a macieza quente do lodo vivo. 
É um rio. 
Corre-me nas mãos, agora molhadas. 
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de 
    repente não sei se as águas nascem de mim, ou para 
    mim fluem. 
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o 
    próprio corpo do rio. 
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os 
    barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que 
    vagarosamente deslizam sobre a película luminosa 
    dos olhos. 
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas 
    águas como os apelos imprecisos da memória. 
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga. 
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e 
    firme pulsar do coração. 
Agora o céu está mais perto e mudou de cor. 
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo 
    acorda o canto das aves. 
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu 
    corpo despido brilha debaixo do sol, entre o 
    esplendor maior que acende a superfície das águas. 
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas 
    da memória e o vulto subitamente anunciado do 
    futuro. 
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar 
    calada sobre a proa rigorosa do barco. 
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que 
    as aves digam nos ramos por que são altos os 
    choupos e rumorosas as suas folhas. 
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, 
    sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas 
    verticais circundam. 
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra 
    viva. 
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se 
    juntarem às mãos. 
Depois saberei tudo.  *

EU LUMINOSO NÃO SOU 
 
Eu luminoso não sou. Nem sei que haja 
Um poço mais remoto, e habitado 
De cegas criaturas, de histórias e assombros. 
Se, no fundo poço, que é o mundo 
Secreto e intratável das águas interiores, 
Uma roda de céu ondulando se alarga, 
Digamos que é o mar: como o rápido canto 
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável 
O movimento de asas. O musgo é um silêncio, 
E as cobras-d’água dobram rugas no céu, 
Enquanto, devagar, as aves se recolhem