Seguindo com a exposição de amostras da obra e da vida de alguns poetas famosos e influentes da literatura mundial, exponho para vocês o trabalho do sérvio Vasko Popa(1922-1991)
*
DENTE DE LEÃO
Na beira do passeio
No fim do mundo
Olho amarelo da solidão
Cegos pés
Apertam-lhe o pescoço
No abdômen de pedra
Cotovelos subterrâneos
Empurram suas raízes
Para o húmus do céu
Pata canina ereta
Faz-lhe troça
Com o aguaceiro recozido
Contenta-o apenas
O olhar sem dono do passante
Que em sua coroa
Pernoita
E assim
A ponta de cigarro vai queimando
No lábio inferior da impotência
No fim do mundo
.
NO FINAL
Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
.
AULA DE POESIA
Sentamos no banco alvo
Sob o busto de Lenau
Nos beijamos
E de passagem falamos
Sobre versos
Falamos sobre versos
E de passagem nos beijamos
O poeta vê algo através de nós
No banco alvo
No pedregulho do caminho
E silencia
Com seus belos lábios de bronze
No Parque da cidade de Vrchatz
Aprendo lentamente
O cerne da poesia
.
CRÍTICA DA POESIA
Depois da leitura de poemas
No serão literário da fábrica
Começa o diálogo
Um ouvinte ruivo
De face marcada por manchas solares
Ergue dois dedos
Camaradas poetas
Se eu lhes versificasse
Toda a minha vida
O papel ficaria rubro
E pegaria fogo
( tradução: Aleksandar Jovanovic)
.
QUARTZO
para Dúshan Ráditch
Sem cabeças sem membros
Aparece
Com o emocionado pulso das ocasiões
Move-se
Com o passo atrevido dos tempos
Tudo cinge
Em seu terrível
Interno abraço
Tronco liso branco exato
Sorri com a sobrancelha da lua
( tradução: Aleksandar Jovanovic)
.
MONUMENTO AO OXIGÊNIO
um vinho rubro-terra me destina
a este país-braços-abertos
do coração do qual frondeja
a árvore da vida de olhos verdes
respira e assim anima
— exânime — uma estrela
me aterrorizam monumentos
grandes fantoches sobreerguidos
com frio e fogo e outras — invisíveis — armas
em parte alguma jubilou-me
um monumento ao oxigênio
todo armado de folhas
de flores e de frutos
e de outras verdades maduras
( Transcriação de Haroldo de Campos,
com a colaboração do Autor.)
*
PORCO
Só quando ouviu
A faca furiosa na garganta
A cortina vermelha
Explicou-lhe o jogo
E ele lamentou
Ter-se desprendido
Dos braços do lamaçal
E à noite do campo
Tão alegre ter corrido
Corrido para o portão amarelo.
*
Fonte:Cultura Para arte Brasil e Oficina Literária Carlito Azevedo



1 comentário
Feed de comentários deste artigo
março 12, 2011 às 11:08 pm
beneditocglima
lik e gostei.está muito bom.