E finalizando os trabalhos dessa semana, exponho aqui alguns poemas de um  brasileiro que através de suas Oficinas Literárias abriu-me o campo das idéias em poesia,o carioca Carlito Azevedo

*

Na noite física
(desentranhado de um poema de Charles Peixoto)

A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a insônia que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d’água.
Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?
E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?
E, em nosso rosto essa raiva
aberta? que estranha lava
é essa que, rubra (baba
de algum diabo), se espalha?
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a fúria que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d’água.

*

BANHISTA

Apenas
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)

[Do livro: as banhistas, Carlito Azevedo, Editora Imago]

*

RÓI

Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes

[Do livro: collapsus linguae, Carlito Azevedo, Editora Lynx]

*

Menino

A pérola
fria
o topázio
quente
dividiam seu
rosto ao meio:
olhos de gato,
olhar de gamo

Do livro: as banhistas, Carlito Azevedo, Editora Imago.
*
ESTRAGADO

No jardim zoológico
um ganso

as patas afundam na lama
e ele imperial
como uma macieira em flor

mas está estragado
como qualquer um pode ver
estragado

pensa que foi para isso
que o resgataram do dilúvio

mas não

resgataram o signo
estragaram o ganso

[Do livro: collapsus linguae, Carlito Azevedo, Editora Lynx]