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Da retradicionalização dos anos 80 ao pluralismo poético dos nossos dias, a poesia contemporânea se cristalizou de tal maneira que quase todos os seus procedimentos e técnicas se tornaram anacronismos, isto é,recursos poéticos que prescindem da experiência e da própria poesia,reduzidos ao culto de gêneros, referências e alusões a si mesmos13. Enfim,o idioma da poesia está hoje pacificado, e nesta atitude de aceitação consumista de todo o legado da tradição (moderna e antiga) o dado novo é que a criação poética vai se tornando cada vez mais uma tradição zelosa de si e de seus próprios valores.
Por paradoxal que pareça, agora a meta é revalorizar a competência lírica, o cuidado artesanal, uma pretensa elevação da dicção, baseada na reapropriação de estilos anteriores datados,retomando-se a idéia mais edificante de poesia como forma e conteúdo —como se a literatice tivesse agora outro fôlego, podendo até revitalizar tradições que pareciam superadas, como o beletrismo e o preciosismo verbal. Na falta de qualquer antagonismo, o que conta é uma certa adequação psicológica de cada linguagem previamente existente ao temperamento, cada autor exercendo sua preferência dentro das opções prontas da tradição. Tudo converge para um lirismo e um expressionismo debilitados, os quais acenam com um direito ilusório à liberdade de poetar, mas destituído de maior compromisso com o sujeito que os pratica, o que, no meu modo de ver, realiza a libertação formal dos modernos como farsa, em estado permanente de creative writing.
Nesse pluralismo estético, o arsenal vanguardista de procedimentos fragmentários, paratáticos, assindéticos, passa a servir à meditação existencial, à reflexão sobre a linguagem, à depuração formal, à elevação da língua (para ocultar a miséria do seu
ensino e a falência da educação pública), com muito respeito pelos gêneros
canônicos.
E agora, neste último ano do século, na situação de pós-catástrofe em que vivemos às vésperas dos 500 anos do Brasil, ficamos a perguntar o que poderá ser o novo, ou o que está ocupando o seu lugar. Sem pretender dar conta das possibilidades existentes, nem desmerecer o empenho dos poetas atuais em sua incansável “procura da poesia”, desconfio que o novo, pelo menos no campo específico da produção poética, está circunscrito a formas e estratégias de atuação literária cujas linhas gerais podem ser assim delineadas:
a) é a liberdade de circular por todos os movimentos e propostas anteriores, sem restrições e sem dramas, em jogos de linguagem que atropelam as historicidades. Multiplicaram-se os tradicionalismos, todos modernos, em cujas opções estéticas atenuadas identificamos a aparência de exigência formal e riqueza de tendências — fenômeno que se impôs com a retradicionalização frívola da poesia nos anos 80, contra o rebaixamento do poético e o desleixo formal da poesia marginal;
b) é a identificação com os rótulos modernos, sem as inquietações e os sentidos
críticos de origem, rótulos estes quase sempre traduzidos em falsas continuidades ou superações pós-modernas;
c) é a integração tranqüila no horizonte do mercado, rendição que em muitos casos passa por consciência crítica. E o mais curioso é o culto da liberdade abstrata de se integrar, seja pela identificação com autor ou tendência prestigiosos, nacionais ou
estrangeiros, seja buscando um lugarzinho ao sol no movimento editorial internacional, seja ainda por meio de gangues ou lobbies que infestam a universidade e a mídia por igual. Inscrever-se na tradição passou a ser uma forma de inserir-se no mercado editorial, de ganhar reconhecimento e lugar nesse negócio da poesia que, ao fim e ao cabo, não passa de um oficialismo desprovido de Estado e burguesia — e não é no mínimo estranho que o bandeirismo, o drummondismo, o cabalismo, o concretismo, o leminskismo etc. se tenham tornado griffes? (que digo eu, a poesia entrou na corrida do prêt-à-porter?) E nos contentemos com esta circunstância cômoda, em que o (supostamente) novo hoje não pode ser senão a reprodução ingênua,sofisticada ou cínica do sempre-igual do mercado?
Fonte:
CONSIDERAÇÕES SOBRE A POESIA
BRASILEIRA EM FIM DE SÉCULO
Iumna Maria Simon
REVISTA NOVOS ESTUDOS CEBRAP
nº 55 -nov 1999-

hana no kumo
kane wa ueno ka
asakusa ka
Tradução:
Nuvem de flores –
Este sino será de Ueno?
Será de Asakusa?
-
furu ike ya
kawazu tobikomu
mizu no oto
Tradução:
Olha o velho lago –
Após o salto da rã
O barulho da água.
-
meigetsu ya
ike o megurite
yo mo sugara
Tradução:
Ah, lua de outono –
Caminhei a noite inteira
Em torno do lago.
-
michi no be no
mukuge wa uma ni
kuware keri
Tradução:
À beira da estrada
A flor do hibisco, e o cavalo
De pronto a comeu!
nozarashi o
kokoro ni kaze no
shimu mi kana
Tradução:
No pensamento
Um esqueleto abandonado –
Arrepios ao vento.
-
kare-eda ni
karasu no tomari keri
aki no kure
Tradução:
Sobre o galho seco
Um corvo pousado –
Entardecer de outono.

haru ya koshi
toshi ya yukiken
kotsugomori
Tradução:
Chega a primavera
Ainda que do ano seja
O penúltimo dia.
*
Matsuo Bashô (1644–1694)
trajada para a batalha
Paíra na relva
II
Vadiam vagalumes
ébrios em torno do copo
beijam o saquê
III
Aveza já a vinha
ao sopro,apura o rosto
em uma reverência

(Este é um Kanji,caractere original da lingua chinesa usado também na escrita japonesa, que designa a palavra zake/sakê)
1-warau yama
miyako ni chikaki
shasô ni mo
Tradução:
Montanha a sorrir
Tão próxima da metrópole
Na janela do carro.
Haku u Akao
***********
2-Grave poluição!
Metrópole gigantesca
– necrópole
*Goga Masuda é a maior referência do haicai brasileiro,
contando com muitos prêmios internacionais em seu currículo




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