UMA CIDADE

Com gula autofágica devoro a tarde
em que gestos antigos me modelaram
há muito,extinto o olhar por descaso da retina,
vejo-me no que sou:
arquitetura desolada –
restos de estômago e maxilar
com que devoro o tempo
e me devoro

(Francisco Alvim)

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SALDO

a torneira seca
(mas pior: a falta de sede)
a luz apagada
(mas pior: o gosto do escuro)
a porta fechada
(mas pior: a chave por dentro)

(José Paulo Paes)

*
POEMEU GLORIOSO

de mim só uma coisa vai ficar:
o busto que eu mesmo fizer
na tumba que eu mesmo cavar

(Millôr Fernandes)
*

RECEITA DE UM HOMEM NOVO

com um pouco de Freud
envolto em celulóide
um tanto de Marxismo
embrulhado em jornalismo
bastante violência
algum inteligência
desprezo da verdade
e alma bem fria
se faz a humanidade
de robô da ideologia

(Millôr Fernandes)
*
A MARCHA DA UTOPIA

não era esta a idependência que eu sonhava
não era esta a república que eu sonhava
não era este o socialimo que eu sonhava
não era este o apocalipse que eu sonhava

(José Paulo Paes)
*
COM ANSIEDADE

os dias passam ao lado
o sol passa ao lado
de quem desceu as escadas
nas varandas tremula
o azul de um céu redondo,distante
quem tem janelas
que fique à espiar o mundo

(Francisco Alvim)
*