Suástica(crônica de Charles Bukowski)

Mais uma Crônica por Charles Bukowski

O presidente dos Estados Unidos entrou em seu carro, cercado por agentes de segurança. Sentou no banco traseiro. A manhã estava sombria, sem nada de especial. Ninguém dizia nada. O carro saiu rodando e podeia-se ouvir o ruído dos pneus deslizando no asfalto ainda úmido da chuva da noite anterior. O silêncio reinante era mais insólito do que nunca.

Depois de certo tempo, o presidente falou:

-Escutem este não é o caminho do aeroporto.

Os agentes não abriram à boca. Estavam programadas umas férias. Duas semanas em sua residência particular. O avião dele aguardava no aeroporto.

Começou a chuviscar. Parecia que a chuva ia recomeçar. Todos, inclusive o presidente, estavam com sobretudos grossos; chapéu; deixava o carro com ar de lotado. Do lado de fora, o vento frio não diminuía.

-Motorista – disse o presidente – acho que você se enganou de caminho.

O motorista não respondeu. Os outros agentes continuaram olhando fixamente para frente.

-Ouçam-disse o presidente-alguém pode me fazer o favor de indicar a esse homem o caminho do aeroporto?

-Não estamos indo pra lá – retrucou o agente á esquerda do presidente.

-Não estamos?-estranhou o presidente.

Os agentes, mais uma vez, se conservaram calados. A garoa transformou-se em chuva. O motorista acionou os limpadores de pára-brisa.

-Escutem o que significa isto?-perguntou o presidente-O que é que está acontecendo?

-Faz semanas que vem chovendo sem parar-disse o agente ao lado do motorista. -É deprimente. Não resta dúvida de que vou gostar muito de ver um pouco de sol.

-é, eu também – disse o motorista.

-tem qualquer coisa errada aqui – insistiu o presidente-, eu exijo…

-O senhor não está em posição de exigir –atalhou o agente á direita do presidene

-Quer dizer que…?

-Exatamente-respondeu o mesmo agente.

-Vai ser um assassinato?-perguntou o presidente.

-Acho difícil. Não se usa mais.

-Então o que…

-Por favor. Recebi ordens para não discutir nada.

Rodaram durante horas. Continuava chovendo. Ninguém abria a boca.

-Agora – disse o agente á esquerda do presidente -, dá a volta de novo, depois entra. Não estamos sendo seguidos. A chuva ajudou muito.

O carro contornou o retorno, depois subiu por uma estradinha cheia de barro. De vez em quando as rodas ficavam girando na lama sem sair do lugar, resvalando, para depois se firmarem e o carro seguir andando. Um homem de impermeável amarelo acendeu a lanterna e orientou até a entrada de uma garagem aberta. Era uma região isolada por arvoredo. Tinha uma pequena casa de campo ao lado da garagem. Os agentes abriram as portas do carro.

-Desça-ordenaram ao presidente.

O presidente obedeceu. Os agentes continuaram cercando atentamente o presidente, embora não houvesse nenhuma criatura viva a quilômetros de distância, a não ser o homem da lanterna e impermeável amarelo.

-Não entendo por que não se podia ter feito a historia toda aqui mesmo – disse o homem do impermeável amarelo-, do outro jeito certamente é muito mais arriscado.

-São ordens – retrucou um dos agentes. -Sabe como é que é. Ele sempre se fiou muito na intuição. Como agora, mais do que nunca.

-Está fazendo um frio de rachar. Tem tempo pra uma xícara de café?Já está pronto.

-Boa idéia. O percurso foi longo. Imagino que o outro carro esteja preparado?

-Claro. E testado várias vezes. Aliás, estamos adiantados dez minutos pelo cronograma. Foi uma das razoes que me levou a sugerir o café. Sabe como ele é em matéria de pontualidade.

-Tá certo, então vamos entrar.

Conservando atentamente o presidente no meio, entraram na casa de campo.

-Sente-se ali-um dos agentes ordenou ao presidente.

_o café é gostoso-disse o homem do impermeável amarelo-,moído na hora.

Foi passando o bule pela sala toda. Serviu-se de uma xícara e depois sentou, sempre de impermeável amarelo, mas tendo jogado o capacete em cima do fogão.

-Ah, está gostoso mesmo-disse um dos agentes.

-Com leite e açúcar?-perguntou um dos agentes ao presidente.

-Está bem-concordou…

Não havia muito lugar no carro velho, mas todos deram jeito de entrar, com o presidente de novo no banco traseiro…

O carro velho também resvalou na lama e nas raízes das arvores, mas conseguiu chegar na pista asfaltada.Mas uma vez, a jornada foi silenciosa durante a maior parte tempo.Aí um dos agentes acendeu no cigarro.

-Merda,não consigo parar de fumar!

-Ué,quem é que não sabe que é difícil?Não se preocupe com isso.

-Não estou preocupado.Só chateado comigo mesmo.

-Ora,deixa isso pra lá.Hoje é um grande dia histórico.

-Concordo plenamente! –disse o do cigarro.

E então deu uma tragada…

Pararam na frente de uma velha casa de cômodos.Continuava chovendo.Ficaram ali sentados durante algum tempo.

-Agora-disse o agente ao lado do motorista-,desçam junto com ele.O caminho está livre.Não tem ninguém na rua.

Saíram andando junto como o presidente, primeiro entrando pela porta da frente, depois subindo 3 lances de escada,sempre mantendo o presidente no meio.Pararam e bateram no 306.A senha:uma pancada,pausa 3 pancadas,pausas, e 2 pancadas…

A porta se abriu e os homens empurraram rapidamente o presidente pra dentro.Depois fecharam á chave e passaram a tranca.Três homens já estavam á espera. Dois deviam ter mais de 50.O terceiro usava um traje que consistia numa camisa velha de operário, calça de segunda mão,folgada demais, e sapatos de 10 dólares, já gastos e sem brilho.Estava sentando numa cadeira de balanço no meio da sala.Devia andar pelos 60, mas sorria…e os olhos não tinham mudado;o nariz,o queixo, a testa,continuavam iguais.

-Seja bem vindo senhor presidente.esperei muito tempo pela História,pela Ciência e por Vossa Excelência, e todos chegaram hoje,pontualmente na hora marcada…

O presidente olhou para o velho na cadeira de balanço.

-Santo Deus!Você…você é…

-Me reconheceu!Outros cidadãos de seu país já fizeram troça semelhança!Burros demais para sequer se der conta de que eu era…

-Mas ficou provado que…

-Claro que ficou.Os abrigos á prova de balas:30 de abril de 1945.Queríamos que fosse assim.Tenho sido paciente.A Ciência estava do nosso lado, mas as vezes precisei acelerar um pouco a História.Queríamos o homem certo.O senhor é esse homem.Os outros eram simplesmente impraticáveis-alienados demais da minha filosofia política…O senhor é muito mais ideal.Trabalhando por seu intermédio há de facilitar tudo.Mas.como ia dizendo,precisei acelerar um pouco as engrenagens da História.. na idade em que estou me vi forçado…

-Quer dizer…?

-Sim .Mandei assassinar o seu presidente Kennedy, e depois o irmão…

-Mas o que pretendem fazer comigo?Já soube que não serei assassinado.

-Permita que lhe apresente os drs Graf e Voelker?

Os dois homens acenaram com a cabeça e sorriram.

-Mas o que vai acontecer?-=insistiu o presidente.

-Por favor.Só um instante.Preciso interrogar meus homens.Karl, como é que foi com o Sósia?

-Perfeito.Telefonamos daqui do sítio.O Sósia chegou ao aeroporto na hora marcada.E declarou que, em virtude do mau tempo, o vôo seria transferido para amanhã.Depois disse que ia dar um passeio…que gostava muito de andar de carro na chuva…

-E quanto ao resto?

-O sósia está morto.

-ótimo.então, mãos a obra.A História e a Ciência chegaram na Hora.

Os agentes começaram a encaminhar o presidente para uma das mesas de cirurgia.Pediram-lhe que tirasse a roupa.O velho se dirigiu par outra mesa.Os drs vestiram os aventais e se preparam pra a operação…

Dos dois homens, o que apresentava menos idade levantou-se de uma das mesas de cirurgia,vestiu as roupas do presidente e depois foi-se parar diante do espelho grande na parede dos fundos.Ficou ali se analisando uns bons 5 minutos.Aí então virou-se.

-è um verdadeiro milagre!Nem sequer uma cicatriz da operação…ou fase de recuperação.Parebens cavalheiros!Como foi possível?

-Bem, Adolph-respondeu um dos médicos-, a medicina progrediu muito desde…

-PARE! nunca mais quero ser chamado de “Adolph!” ..até o momento em que eu avisar !Até lá…ninguém vai falar em alemão..Agora sou o presidente dos Estados Unidos!

 

-Sim senhor presidente!

Aí levantou a mão e tocou em cima do lábio superior:

-Mas sinto falta do velho bigode!

Todos sorriram.

Depois perguntou:

-E o velho?

-Já o colocamos na cama, Só irá acordar dentro de 24 horas.Neste momento…tudo…todos os acessórios da operação já foram destruídos,eliminados.Só falta ir embora daqui.-disse o dr Graf-.Mas senhor presidente sou da opinião que esse homem deve…

-Não,fique tranqüilo, ele não pode fazer mais nada!Que sofra o que eu também sofri!

Aproximou-se da cama e contemplou o homem.Um velho de cabelo branco de mais de 80 anos de idade.

-amanha estarei em sua residência particular.Será que a mulher dele vai gostar de mim na cama?-perguntou com uma risadinha.

-Tenho certeza mein Fuhrer-Desculpe tenho certeza sendo presidente de que irá gostar muito.

-Então vamos embora.Os médicos primeiro,pra irem pra onde devem ir.Depois o resto…um ou mais dois de cada vez…uma troca de carros, e por fim uma noite bem dormida na Casa Branca.

O velho de cabelos branco acordou estava sozinho na sala.Podia fugir.Saltou da cama á procura de roupa e ao atravessar a peça enxergou um ancião no espelho do outro lado da parede.

Não pensou,ah meu Deus na!

Levantou o braço o velho no espelho fez o mesmo.Deu uns passos a frente.O tamanho do velho aumentou,olhou pra as mãos.-enrugadas,não eram as dele !e olhou os pés !não eram os dele.O corpo também não era!

-Meu deus!-exclamou em voz alta –Ah,meu Deus!

Então ouviu a própria voz.Nem sequer era a sua.Tinham trocado também o órgão vocal.Apalpou a garganta, a cabeça com os dedos .nenhuma cicatriz! Em parte alguma .Vestiu as roupas do velho e desceu correndo a escada.Bateu na primeira porta que encontrou, onde estava escrito “Zeladora”.

A porta se abriu uma velha.

– Pois não, Mr Tilson?-perguntou

-Mr tilson?minha senhora eu sou o presidente dos estados unidos isto é urgente!

-Ah, Mr Tilson o senhor é tão engraçado!

-Escute, onde é o telefone?

-Ali onde sempre esteve Mr Tilson.Logo á esquerda da porta de entrada.

Apalpou os bolsos.Tinham lhe deixado uns trocados.Olhou a carteira 18 dólares.Colocou uma moedinha no telefone.

-Minha senhora qual o endereço daqui?

-Ora, Mr Tilson o senhor sabe muito bem qual é.Faz anos que mora aqui.O senho está se comportando de um modo estranhíssimo hoje .E tem mais uma coisa que quero lhe dizer!

-Sim,sim, o que é?

-devo lembrar que hoje é dia de pagar o aluguel!

-Ah minha senhora, por favor, me de o endereço daqui!

_Como se não soubessse!é 2435,Shoreham Drive.

-Alô?-disse ele no telefone-táxi?mande um carro aqui pro numero 2432.Shoreham Drive.estarei a espera no térreo.O meu nome?O meu nome?está bem o meu nome é Tilson…

Não adianta ir lá na Casa Branca, pensou, já devem er tomado precauções…Vou procurar o maior jornal.Contarei tudo a eles.Contarei tudo o que aconteceu ao editor….

Os outros pacientes riram dele.

-Tá vendo esse cara aí?Aquele ali, que se parece com aquele ditador,com é mesmo o nome dele, só que bem mais velho.Seja lá como for, quando chegou aqui no mês passado dizia que era o presidente dos Estados Unidos.Isso já az um mês.Agora já quase não toca mais no assunto. Mas gosta de ler jornal á beça.Nunca vi um cara mais louco pra ler jornal.Mas entende de política pra burro.Acho que isso tá deixando ele doido.Política demais.

Tocou a sineta do jantar.Todos os pacientes se animaram.Com uma exceção.

O enfermeiro chegou perto dele.

-Mr Tilson?

Não houve resposta.

-MR TILSON!

-Ah..o que foi?

-Tà na hora de comer Mr Tilson!

O velho de cabelo branco se levantou e se dirigiu lentamente para o refeitório dos pacientes.

———

créditos:’Crônicas de um amor louco’-editora L&M pocket,2007

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Autor: Fabio R.

Para começar eu nunca tive as letras como profissão comecei a escrever por dois motivos: ---para passar o tempo ---para espantar a insônia Hoje escrevo pra responder a simples pergunta: serei eu um ser inteligente ou apenas mais um animal na face da Terra? Eu comecei com umas HQS ao 6 anos( em 1988),logo que aprendi a ler um pouco melhor, incialmente impulsionado pela leitura do Gibi do Cascão. Logo as estórias do menino que nao toma banho ficaram sem muitos atrativos e comecei a fzr minhas estórias. No começo era apenas comédia infantil, mais depois de 3 sequencias de "SEXTA FEIRA 13" comecei a me interessar pelo genero do terror. Bem a fase de HQS durou até os 12 anos e seu auge foi entre 1990 e 1992 quando tinha mais 7 amigos produzindo e compartilhando suas HQS comigo.Confesso que nao desenhavamos muito bem. Depois um periodo negro me encontrou,estou falando da adolescência de HEAD BANGUER, passava o dia todo escutado SABBATH e MAIDEN. Então impulsionado por toda a euforia daquele som,e pela vontade de pegar garotas, montei uma banda com os amigos.Não conseguiamos tocar covers nem dos RAMONES entao faziamos nossas composições, era bem simples tinhamos dois guitarristas, um que começava a aprender a escala pentatônica com seu professor particular, e um que tocava hinos religiosos, por incompentência mesmo após alguns meses de conservatório eu fui delegado ao posto de vocalista,tbm tinhamos um baixista que nunca aparecia nos ensaios. O que isso tem a ver com a escrita vcs me perguntam?Era eu que compunha a maioria das letras pops e desnexadas, três shows em colégios e 3 brigas por namoradas depois a banda entrou em um hiato indefenido, conseguimos 8 composições, a maior delas "Herdeiro do céu e da solidão" que teria sido um clássico do METTAL se as fitas de rolo magnético da decáda de 50 que herdei com um gravador de meu avô tivessem resistido a fúria de um vira latas. Bem o interesse por poesia começou no colegial, quando descobri que algumas menininhas ficavam impressionadas ao escutar um soneto de Camões ou de Augusto do Anjos. E usei umas duas composições minhas para arranjar namorada. Finalmente chegamos até o dia de hoje onde ainda não consegui escrever uma poesia decente,sempre erro a métrica, e não sei onde diabos a aliteração se encaixa em um texto. Bem, meu objetivo principal é superar a façanha de meu avô Juliano que consegui em 60/70 publicar algumas poesias em um livro de contos regionais no interior de SP. Espero que vcs se divirtam e reflitam como é imprestável um ser humano neste planeta ao lerem minhas tentativas de poetar. Fora da comunidade vcs podem também acessar o site: www.epicosubmundo.blogspot.com Fabio R.Vieira

Uma consideração sobre “Suástica(crônica de Charles Bukowski)”

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