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Crédito apodrecido
Digerido pelo canibal especulativo
 Cuca, vaga, na Casa-Branca.

————

*esse é um poetrix dedicado a crise financeira nos EUA,e a expectativa que se cria sobre o próximo presindente principalmente pelo andamento do debate realizado ontem na Universidade de Oxford

meus lábios cerrados

não são como as serras de Minas

são costurados, apavorados

pra não escapulir palavras

aquelas que não, são mentiras

aquelas que não são, mentiras

aquelas que não são mentiras

ainda assim despenca do céu

de uma boca nublada, chovida

meus dentes como pedregulhos

na beira da estrada, inconstantes

uns ausentes, outros brancos marfim

o que será de mim?

quando chegar a hora de dizer a verdade

desenterrar a coragem, partir a estrela

desembrulhar a bomba liberdade

um grito de dor ou de alívio

será um uivo do meu dente canino?

—-

*Esta é uma contribuição do  talentoso amigo  Ivan Santos, mais sobre ele pode ser encontrado no link Kaleidoscópio Inverso

Caminhado e cantando e seguindo a canção…. para não dizer que não falei de flores, ou melhor para não dizerem por aí que este blog vive é de explorar o esforço criativo alheio  exponho para vocês( eu vivo na utopia de ter  web leitores)um fruto mais cálido do meu ócio criativo o soneto-mutante Dádiva:

The Model(2002)

Pankaspe, model for Apelles-Millo Manara(2002)

Hão de consumar a  falácia em fetiche!
Seres que  enlaçam moralmente  os seus amavios
Pois desatina-me em silhueta a sandice
Avidamente á cozer em brasa  arrepios!

No que Eros lhe convém, glutonaria e sevícia
Rosados pomos a abrigar com gentileza
Um sereno mirante em sáfara vereda
Vassalo epiceno ao gozo e a carícia!

Em seus dotes a tentação se torna cálida
Verte-se em compulsão sua tara esfaimada!
Como se minaz fosse à sombra do zelo

Ao êxtase que os arrebata mais belo
Assim plena a devassidão é deslumbrada!
Furtiva e  imoral como usufruída dádiva

E finalizando os trabalhos dessa semana, exponho aqui alguns poemas de um  brasileiro que através de suas Oficinas Literárias abriu-me o campo das idéias em poesia,o carioca Carlito Azevedo

*

Na noite física
(desentranhado de um poema de Charles Peixoto)

A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a insônia que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d’água.
Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?
E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?
E, em nosso rosto essa raiva
aberta? que estranha lava
é essa que, rubra (baba
de algum diabo), se espalha?
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a fúria que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d’água.

*

BANHISTA

Apenas
em frente
ao mar
um dia de verão –
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável –
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos –
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)

[Do livro: as banhistas, Carlito Azevedo, Editora Imago]

*

RÓI

Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes

[Do livro: collapsus linguae, Carlito Azevedo, Editora Lynx]

*

Menino

A pérola
fria
o topázio
quente
dividiam seu
rosto ao meio:
olhos de gato,
olhar de gamo

Do livro: as banhistas, Carlito Azevedo, Editora Imago.
*
ESTRAGADO

No jardim zoológico
um ganso

as patas afundam na lama
e ele imperial
como uma macieira em flor

mas está estragado
como qualquer um pode ver
estragado

pensa que foi para isso
que o resgataram do dilúvio

mas não

resgataram o signo
estragaram o ganso

[Do livro: collapsus linguae, Carlito Azevedo, Editora Lynx]

Seguindo com a exposição de amostras da obra e da vida de alguns poetas famosos e influentes da literatura mundial, exponho para vocês o trabalho do sérvio Vasko Popa(1922-1991)

*

DENTE DE LEÃO

Na beira do passeio
No fim do mundo
Olho amarelo da solidão

Cegos pés
Apertam-lhe o pescoço
No abdômen de pedra

Cotovelos subterrâneos
Empurram suas raízes
Para o húmus do céu

Pata canina ereta
Faz-lhe troça
Com o aguaceiro recozido

Contenta-o apenas
O olhar sem dono do passante
Que em sua coroa
Pernoita

E assim
A ponta de cigarro vai queimando
No lábio inferior da impotência
No fim do mundo

.

NO FINAL

Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais

O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também

Onde estou agora

Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira

Será que me ouves

Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós

.

AULA DE POESIA

Sentamos no banco alvo
Sob o busto de Lenau

Nos beijamos
E de passagem falamos
Sobre versos

Falamos sobre versos
E de passagem nos beijamos

O poeta vê algo através de nós
No banco alvo
No pedregulho do caminho

E silencia
Com seus belos lábios de bronze

No Parque da cidade de Vrchatz
Aprendo lentamente
O cerne da poesia
.

CRÍTICA DA POESIA

Depois da leitura de poemas
No serão literário da fábrica
Começa o diálogo

Um ouvinte ruivo
De face marcada por manchas solares
Ergue dois dedos

Camaradas poetas

Se eu lhes versificasse
Toda a minha vida
O papel ficaria rubro

E pegaria fogo

( tradução: Aleksandar Jovanovic)

.

QUARTZO

para Dúshan Ráditch

Sem cabeças sem membros
Aparece
Com o emocionado pulso das ocasiões
Move-se
Com o passo atrevido dos tempos
Tudo cinge
Em seu terrível
Interno abraço

Tronco liso branco exato
Sorri com a sobrancelha da lua

( tradução: Aleksandar Jovanovic)

.

MONUMENTO AO OXIGÊNIO

um vinho rubro-terra me destina
a este país-braços-abertos
do coração do qual frondeja
a árvore da vida de olhos verdes

respira e assim anima
— exânime — uma estrela

me aterrorizam monumentos
grandes fantoches sobreerguidos
com frio e fogo e outras — invisíveis — armas

em parte alguma jubilou-me
um monumento ao oxigênio

todo armado de folhas
de flores e de frutos
e de outras verdades maduras

( Transcriação de Haroldo de Campos,
com a colaboração do Autor.)

*

PORCO

Só quando ouviu
A faca furiosa na garganta
A cortina vermelha
Explicou-lhe o jogo
E ele lamentou
Ter-se desprendido
Dos braços do lamaçal
E à noite do campo
Tão alegre ter corrido
Corrido para o portão amarelo.

*

Fonte:Cultura Para arte Brasil e Oficina Literária Carlito Azevedo

Uivo
para Carl Solomon

Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,

morrendo de fome, histéricos, nus,

arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca

de uma dose violenta de qualquer coisa,

“hipsters” com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato

celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,

que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando

sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis aparta-
mentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das
cidades contemplando jazz,

que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram

anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos,

que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes

alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake
entre os estudiosos da guerra,

que foram expulsos das universidades por serem loucos e publi-

carem odes obscenas nas janelas do crânio,

que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descasca-

da em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas
de papel, escutando o Terror através da parede,

que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo

com um cinturão de marijuana para Nova York,

que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam tereben-

tina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus tor-
sos noite após noite

com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e cara-

lhos e intermináveis orgias,

incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão

na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Pa-
terson, iluminando completamente o mundo imóvel do
Tempo intermediário,

solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal
com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos te-
lhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de
neon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vi-
brações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de
inverno de Brooklin, declamações entre latas de lixo e a
suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável

percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até
que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta,
trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do
cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zôo-
lógico,

que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s,

voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no
desolado Fugazzi’s escutando o matraquear da catástrofe
na vitrola automática de hidrogênio,

que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao

bar ao hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklin,

batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gra-

dis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas
do Empire State da lua,

tagarelando, berrando, vomitando, sussurando fatos e lembran-

ças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,

intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os

olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinago-
ga jogada na rua,

que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum dei-

xando um rastro de cartões postais ambíguos do Centro
Cívico de Atlantic City,

sofrendo amores orientais , pulverizações tangerianas nos ossos

enxaquecas da China por causa da falta da droga no
quarto pobremente mobiliado de Newark,

que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da estação fér-

roviária perguntando-se onde ir e foram, sem deixar cora-
ções partidos,

que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga,

vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve
até solitárias fazendas dentro da noite do avô,

que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e

bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus
pés em Kansas,

que passaram solitários paelas ruas de Idaho procurando anjos

índios e visionários,

que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu

em êxtase sobrenatural,

que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impul-

so da chuva de inverno na luz da rua da cidade pequena
à meia-noite,

que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz

ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para
conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e
assim embarcaram num navio para a África,

que desapareceram nos vulcões do México nada deixando

além da sombra das suas calças rancheiras e a lava e a
cinza da poesia espalhadas na lareira de chicago,

que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e

bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas
peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,

que apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando contra

o nevoeiro narcótico de tabaco do capitalismo,

que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Suare,

chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos
os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam
pela Wall Street e também gemia a balsa da Staten Is-
land,

que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e

trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,

que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos

carros de presos por não terem cometido outro crime a não
ser sua transação pederástica e tóxica,

que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do telha-

do sacudindo genitais e manuscritos,

que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e

urraram de prazer,

que enrabaram e foram enrabados por estes serafins humanos, os

marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,

que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na

grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livre-
mente seu sêmem para quem quisesse vir,

que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acaba-

ram choramingando atrás de um tabique de banho turco
onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada,

que perderam seus garotos amados para as tres megeras do destino,

a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios do tear do artesão,

que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja,

uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a paerede com uma visão da buceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,

que adoçaram trepadas de um milhão de garotas trêmulas

ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguin-
te mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,

que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados

à noite, N.C. herói secreto destes poemas , garanhão
e Adonis de Denver – prazer ao lembrar de suas incontáveis
trepadas com garotas em terrenos baldios e pátios dos
fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas filei-
ras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas
ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias
solitário á beira da estrada & especialmente secretos solip-
sismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,

que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados

em sonho, acordaram num Manhattan súbito e consegui-
ram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de
Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Aveni-
da & cambalearam até as agências de emprego,

que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue

pelo cais coberto por montões de neve, esperando que
se abrisse uma porta no East River dando num quarto
cheio de vapor e ópio,

que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de aparta-

mentos de Hudson à luz de holofote anti-aéreo da lua &
suas cabeças receberão coroa de louro no esquecimento,(…)

Fonte:Uivo poemas,Coleção L&M Pocket(1984)-(2006)

Eu

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha

*

pequena seleção de 36 poemas

1.

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

2.

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

3.

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

4 e 5.

LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito
são suas obras completas.

LÁPIDE 2
epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
mestre em disfarces

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces

6.

Aço e Flor

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

7.

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

8.

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta

9.

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

10.

para a liberdade e luta

me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu

me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão

11.

en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
moches
poemas

12.

WITH THE MAN

aqui
no oeste
todo homem tem um preço
uma cabeça a prêmio
índio bom é índio morto
sem emprego
referência
ou endereço
tenho toda a liberdade
pra traçar meu enredo

nasci
numa cidade pequena
cheia de buracos de balas
porres de uísque
grandes como o grand cayon
tiroteios noturnos
entre pistoleiros brilhantes
como o ouro da califórnia
me segue uma estrela
no peito do xerife de denver

13.

manchete

CHUTES DE POETA
NÃO LEVAM PERIGO À META

14.

POESIA: “words set to music”(Dante
via Pound), “uma viagem ao
desconhecido” (Maiakóvski), “cernes
e medulas” (Ezra Pound), “a fala do
infalável” (Goethe), “linguagem
voltada para a sua própria
materialidade” (Jakobson),
“permanente hesitação entre som e
sentido” (Paul Valery), “fundação do
ser mediante a palavra” (Heidegger),
“a religião original da humanidade”
(Novalis), “as melhores palavras na
melhor ordem” (Coleridge), “emoção
relembrada na tranqüilidade”
(Wordsworth), “ciência e paixão”
(Alfred de Vigny), “se faz com
palavras, não com idéias” (Mallarmé),
“música que se faz com idéias”
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
fingimento deveras” (Fernando
Pessoa), “criticismo of life” (Mathew
Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
“linguagem em estado de pureza
selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
inspire” (Bob Dylan), “design de
linguagem” (Décio Pignatari), “lo
impossible hecho possible” (Garcia
Lorca), “aquilo que se perde na
tradução (Robert Frost), “a liberdade
da minha linguagem” (Paulo
Leminski)…

15.

quero a vitória
do time de várzea

valente
covarde

a derrota
do campeão

5 X 0
em seu próprio chão

circo
dentro
do pão

16.

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois

17.

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

18.

quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

19.

de ouvido

di vi
di do
entre
o
ver
&
o
vidro
du vi do

20.

sim
eu quis a prosa
essa deusa
só diz besteiras
fala das coisas
como se novas

não quis a prosa
apenas a idéia
uma idéia de prosa
em esperma de trova
um gozo
uma gosma

uma poesia porosa

21.

coração
PRA CIMA
escrito em baixo
FRÁGIL

22.

nada que o sol
não explique

tudo que a lua
mais chique

não tem chuva
que desbote essa flor

23.

o novo
não me choca mais
nada de novo
sob o sol

apenas o mesmo
ovo de sempre
choca o mesmo novo

24.

quatro dias sem te ver
e não mudaste nada

falta açúcar na limonada

me perdi da minha namorada

nadei nadei e não dei em nada

sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade

25.

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

26.

moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

27.

ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
de experimentador

28.

o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

29.

cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

30.

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

30.

ascenção apogeu e queda da vida paixão
e morte
do poeta enquanto ser que chora enquanto
chove lá fora e alguém canta
a última esperança da luz e pegar o primeiro trem
para muito além das serras que azulam no
horizonte
e o separam da aurora da sua vida

31.

Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

32.

HAI

Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.

33.

KAI

Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.

De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.

A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.

34.

as coisas estão pretas

uma chuva de estrelas
deixa no papel
esta poça de letras

35.

duas folhas na sandália

o outono
também quer andar

36.

nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima
*

Fonte=Revista Agulha

P.Lemiski

Bio-Bibliografia

1944, Curitiba, Paraná, 24 de agosto, nascimento de Paulo Leminski Filho. Filho de Paulo Leminski e Áurea Pereira Mendes Leminski
1964, São Paulo, SP, publicação de poemas na revista Invenção, porta voz da poesia concreta paulista.

1968, casamento com a poeta Alice Ruiz. Filhos: Miguel Ângelo, falecido aos 10 anos; Áurea Alice e Estrela.

1970/1989, Curitiba, Paraná, redator de publicidade. Músico e letrista. Canções gravas por Caetano, A Cor do Som.

1975, Curitiba, PR, publicação de Catatau, um romance experimental.

1980/1986, São Paulo, colaborador do suplemento Folhetim, do jornal Folha de São Paulo; também colaborador da revista Veja.

1984/1986, Curitiba, PR, tradutor de Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Becktett e Yukio Mishima

1986, São Paulo, SP, publicação do livro infanto-juvenil Guerra dentro da gente.

1989 – Curitiba, PR, 07 de junho: morte.

Paulo Leminski foi um estudioso da língua e cultura japonesas e publicou em 1983 uma biografia de Bashô. Sua obra tem exercido marcante influência em todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos.

Obra

Poesia

LEMINSKI, Paulo. Quarenta clic’s de Curitiba. Poesia e fotografia, com o fotógrafo Jack Pires. Curitiba, Etecetera, 1976. (2ª edição Secretaria de Estado Cultura, Curitiba, 1990.) n.p.
· Polonaises. Curitiba, Ed. do Autor, 1980. n.p.
· Não fosse isso e era menos/ não fosse tanto e era quase. Curitiba, Zap, 1980. n.p.
· Tripas. Curitiba, Ed. do Autor, 1980.
· Caprichos e relaxos. São Paulo, Brasiliense, 1983. 154p.
& RUIZ, Alice. Hai Tropikais. Ouro Preto, Fundo Cultural de Ouro Preto, 1985. n.p.
· Um milhão de coisas. São Paulo, Brasiliense, 1985. 6p.
· Caprichos e relaxos. São Paulo, Círculo do Livro, 1987. 154p.
· Distraídos venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1987. 133p. (5ª edição 1995)
· La vie en close. São Paulo, Brasiliense, 1991.
· Winterverno (com desenhos de João Virmond). Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994. (2ª edição a sair pela Iluminuras)
· Szórakozott Gyozelmunk (Nossa Senhora Distraída) – Distraídos venceremos, tradução de Zoltán Egressy . Coletânea organizada por Pál Ferenc. Hungria, ed. Kráter, 1994. n.p.
· O ex-estranho. Iluminuras, São Paulo, 1996.
· Melhores poemas de Paulo Leminski. (seleção Fréd Góes) Global, São Paulo, 1996.
· Aviso aos náufragos. Coletânea organizada e traduzida por Rodolfo Mata. Coyoacán – México, Eldorado Ediciones, 1997. n.p.

PROSA

LEMINSKI, Paulo. Catatau (prosa experimental). Curitiba, Ed. do Autor, 1975. 213p.
· Agora é que são elas (romance). São Paulo, Brasiliense, 1984.1 63p.
· Catatau. 2ª ed. Porto Alegre, Sulina, 1989. 230p.
· Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego (prosa poética/ensaio). Iluminuras, São Paulo, 1994. (Prêmio Jabuti de poesia , 1995)
· Descartes com lentes (conto). Col. Buquinista, Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1995. · Agora é que são elas (romance). 2ª ed. Brasiliense / Fundação Cultural de Curitiba, 1999.

BIOGRAFIAS

LEMINSKI, Paulo. Cruz e Souza. São Paulo, Brasiliense. 1985. 78p.
· Matsuó Bashô. São Paulo, Brasiliense, 1983. 78p.
· Jesus. São Paulo, Brasiliense, 1984, 119p.
· Trotski: a paixão segundo a revolução. São Paulo, Brasiliense, 1986.
· Vida (biografias: Cruz e Souza, Bashô, Jesus e Trótski). Sulina, Porto Alegre, 1990. (2ª edição 1998)
„. ENSAIOS
·POE, Edgar Allan. O corvo. São Paulo, Expressão, 1986. 80p. (apêndice)
· Poesia paixão da linguagem. Conferência incluída em Sentidos da paixão. Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 1987. p.287-305.
· Nossa linguagem. In: Revista Leite Quente. Ensaio e direção. Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba, v.1, n.1, mar.1989.
LEMINSKI, Paulo. Anseios crípticos (anseios teóricos): peripécias de um investigador dos sentido no torvelinho das formas e das idéias. Curitiba, Criar, 1986. 143p.
·Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego (prosa poética/ensaio). Iluminuras, São Paulo, 1994. (Prêmio Jabuti de poesia , 1995) ·Ensaios e anseios crípticos. Curitiba, Pólo Editorial, 1997. n.p.

TRADUÇÕES

FANTE, John. Pergunte ao pó. São Paulo, Brasiliense, 1984.
FERLINGHETTI, Lawrence. Vida sem fim (com Nelson Ascher e outros tradutores). São Paulo, Brasiliense, 1984. n.p.
JARRY, Alfred. O supermacho; romance moderno. São Paulo, Brasiliense, 1985. 135p. lndição editorial, posfácio e tradução do francês.
JOYCE, James. Giacomo Joyce. São Paulo, Brasiliense, 1985. 94p. Edição bilingüe, tradução e posfácio.
LENNON, John. Um atrapalho no trabalho. São Paulo, Brasiliense, 1985.
MISHIMA, Yukio. Sol e aço. São Paulo, Brasiliense, 1985.
PETRONIO. Satyricon. São Paulo, Brasiliense, 1985.191 p. Traducão do latim.
BECKETT, Samuel. Malone Morre. São Paulo, Brasiliense, 1986.16Op. lndicação editorial, posfácio e traduções do francês e inglês.
Fogo e água na terra dos deuses. Poesia egípsia antiga. São Paulo, Expresão, 1987. n.p.

LITERATURA INFANTO-JUVENIL

LEMINSKI, Paulo. Guerra dentro da gente. São Paulo, Scipione, 1986. 64p.
· A lua foi ao cinema. São Paulo, Pau Brasil, 1989. n.p.

INÉDITOS

Gozo Fabuloso (contos)
Argumento (teatro)

OUTROS

· Um escritor na biblioteca (“bate-papo”). Biblioteca Pública do Parana, Curitiba, 1985.
· Paulo Leminski. Série Paranaenses, reunião de entrevistas e resenhas. Scientia et Labor, Curitiba, 1988.
· Memória de vida (homenagem póstuma). Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1989.
· Uma carta uma brasa através / Cartas a Régis Bonvicino (correspondência). Iluminuras, São Paulo, 1991.
MENEZES DE MELO, Tarso. Poesia, pão e circo & Paulo Leminski: ofício de fascínio (ensaios). Alpharrabio, Santo André, 1997.
· Envie meu dicionário / Cartas a Régis Bonvicino e alguma crítica (correspondência). 34 Letras, São Paulo, 1999.
Cinema
ROTEIRO para documentário sobre o Museu David Carneiro.
DRAMA da fazenda Fortaleza (participação no roteiro).

Novela
Minha Classe Gosta, Logo, É Uma Bosta

Telenovela
OUTRA paixão é um perigo

Quadrinhos
QUANDO papai voltar

Roteiros
O ANÃOZlNHO de bordel
SINAL verde para o prazer
A VIDA e morte

Produção musical

LETRA E MÚSICA de Paulo Leminski

·1981- Verdura – Caetano Veloso no disco OUTRAS PALAVRAS
·1981- Mudança de estação -A cor do Som no disco MUDANÇA DE ESTAÇÃO
·1981- Valeu – Paulinho Boca de Cantor no disco VALEU
·1982- Se houver céu – Paulinho Boca de Cantor no disco PRAZER DE VIVER
·1982- Razão – A Cor do Som no disco MAGIA TROPICAL
·1990- Verdura – Blindagem no disco BLINDAGEM
·1990- Se houver céu – Blindagem no disco BLINDAGEM
·1993- Mãos ao alto – Edvaldo Santana no disco LOBO SOLITÁRIO
·1994- Luzes – Suzana Salles no disco SUZANA SALLES
·1996- Mudança de estação – A cor do Som no disco AO VIVO NO CIRCO

GRAVAÇÕES EM PARCERIA (Letras de Paulo Leminski e música dos parceiros)

·1976- Festa Feira – com Celso Loch no disco MAPA – Movimento de Atuação Paiol
·1982- Promessas demais – com Moraes Moreira e Zeca Barreto, gravação por Ney Matogrosso
·1982- Baile no meu coração – com Moraes Moreira no disco COISA ACESA
·1982- Decote Pronunciado – com Moraes Moreira e Pepeu Gomes no disco COISA ACESA
·1982- Pernambuco Meu – com Moraes Moreira no disco COISA ACESA
·1983- Sempre Ângela – com Moraes Moreira e Fred Góes no disco SEMPRE ANGÊLA de Ângela Maria
·1983- Teu Cabelo – com Moraes Moreira no disco PINTANDO O 8
·1983- Oxalá – com Moraes Moreira no disco PINTANDO O 8
·1984- Mancha de Dendê não sai – com Moraes Moreira no disco MANCHA DE DENDÊ NÃO SAI
·1984- Milongueira da Serra Pelada, O Prazer do Poder, Circo Pirado, Xixi nas estrelas, Cadê Vocês?, Coração de Vidro, Frevo Palhaço, Viva a Vitamina com Guilherme Arantes no disco PIRLIMPIMPIM 2
·1985- Alma de Guitarra – com Moraes Moreira no disco TOCANDO A VIDA
·1985- Vamos Nessa – com Itamar Assumpção no disco SAMPA MIDNIGHT
·1986- Desejos Manifestos – com Moraes Moreira e Zeca Barreto no disco MESTIÇO É ISSO
·1986- Morena Absoluta – com Moraes Moreira no disco MESTIÇO É ISSO
·1988- UTI – com Arnaldo Antunes, gravado por Clínica no disco CLÍNICA
·1990- Oração de um Suicida -com Pedro Leminski, Blindagem no disco BLINDAGEM
·1990- Sou legal eu sei – com Ivo Rodrigues no disco BLINDAGEM
·1990- Não posso ver – com Ivo Rodrigues no disco BLINDAGEM
·1990- Palavras – com Ivo Rodrigues no disco BLINDAGEM
·1990- Hoje – com Ivo Rodrigues no disco BLINDAGEM
·1990- Marinheiro – com Ivo Rodrigues no disco BLINDAGEM
·1990- Quanto tempo mais – com Ivo Rodrigues no disco BLINDAGEM
·1990- Legião de anjos – com Ivo Rodrigues no disco BLINDAGEM
·1991- Lêda – com Moraes Moreira no disco CIDADÃO
·1991- Morena Absoluta – com Moraes Moreira no disco OPTIMUN IN HABBEAS COPPUS
·1992- Polonaise – com José Miguel Wisnik no disco JOSÉ MIGUEL WISNIK
·1992- Subir Mais – com José Miguel Wisnik no disco JOSÉ MIGUEL WISNIK
·1993- Alles Plastik – com Carlos Careqa no disco TODOS OS HOMENS SÃO IGUAIS
·1993- Freguês Distinto – com Edvaldo Santana no disco LOBO SOLITÁRIO
·1993- Custa nada sonhar – com Itamar Assumpção no disco BICHO DE 7 CABEÇAS
·1994- Polonaise – com José Miguel Wisnik na trilha sonora do filme ED MORT
·1995- O Deus – com Edvaldo Santana e Ademir Assunção no disco TÁ ASSUSTADO? de Edvaldo Santana
·1996- Filho de Santa Maria – com Itamar Assumpção, gravado por Zizi Possi no disco MAIS SIMPLES
·1996- ODE X – com Marcelo Solla no disco Marcelo Solla
·1997- Lua no Cinema – com Eliakin Rufino no disco SANSARA da Sansara
·1997- Lêda – com Moraes Moreira no disco 50 CARNAVAIS
·1997- Mancha de dendê não sai – com Moraes Moreira no disco 50 CARNAVAIS
·1997- Parece que foi ontem – com Bernardo Pelegrini no disco QUERO SEU ENDEREÇO da banda Bernardo e o bando do cão sem dono.
·1997- Filho de Santa Maria – com Itamar Assunção no disco QUERO SEU ENDEREÇO da banda Bernardo e o bando do cão sem dono.
·1998- Legião de Anjos – com Ivo Rodrigues no disco DIAS INCERTOS
·1998- Rapidamente – com Ivo Rodrigues no disco DIAS INCERTOS
·1998- Filho de Santa Maria – com Itamar Assumpção, Beco no disco BECO
·1998- V. de Viagem – com Beco no disco BECO
·1998- Peso da Lua – com Beco no disco BECO
·1998- Coisas – com Celso Loch no disco VERFREMDUNGSEFFEKT BLUES
·1998- Além Alma – com Arnaldo Antunes no disco UM SOM
·1998- Dor Elegante – com Itamar Assumpção no disco PRETOBRÁS
·1999- Perdendo Tempo – com Thadeu / Roberto Prado / Walmor Douglas na trilha sonora do filme BAR BABEL da banda Maxixe Machine

NOTA: Não estão relacionadas as participações em antologias, prefácios e esparsos. A relação da produção musical não está completa.

—-

Fonte:Revista Agulha-Jornal da Poesia

Zé do Caixão-coffin Joe

Zé do Caixão-coffin Joe


Lá vem encarnado em manto atro
Os vestíbulos da aurora bestial
Jorram as pragas num delírio anormal
Arrebatando egos ao jugo tártaro

Cedeu o lugar da’lma ao betume
A epífora amargurada de Josefel
Há de crivar na idolatria seu fel
Na busca pelo súpero perfume

Da fêmea em seu eugênico papel
Acima da metafísica o EU
Jazei inexorável Zé és brado infamo

Metamorfoseando um algoz cruel
Ostenta as insígnias de quem
O status quo de encarnar o diabo!

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar…).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
E’ estar ao lado da escala social,
E’ não ser adaptável às normas da vida,
‘As normas reais ou sentimentais da vida –
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
E’ ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
E’ ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

Autoria:Àlvaro de Campos

*

XXXII

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.

Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os
outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

Autoria:Alberto Caeeiro
*
LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

Autoria:Fernando Pessoa(ortônimo)
*
Bocas Roxas

Bocas roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa;

Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.

Antes isto que a vida
Como os homens a vivem
Cheia da negra poeira
Que erguem das estradas.

Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas.

Autoria:Ricardo Reis

*****

Obs:aos menos conhecedores da obra de Fernando Pessoa, todas as poesias acima pertencem a um só ser Humano, o escritor portugês Fernando Pessoa.Os outros autores são personagens, ou melhor personalidades que realizam  deiferentes  interações entre autor e poesia

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Nietzche em seu ensaio:“Moral Como Antinatureza” escreveu : A realidade nos mostra uma encantadora riqueza de tipos, uma abundante profusão de jogos e mudanças de forma.” ************************************ você pode acessar meus textos também através dos sites: Recanto das Letras Fabio R Poesia e Companhia

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