Da cidade às persianas (por Fábio R.)

Evening on Karl Johan-Edvard Munch 1892

.

À cidade: ansiedade;

Veio tatear com negros palpos
O repousar dum homem temeroso
Mordazes, como outrora, eles são:

No pulso destoante as sirenes
Na atmosfera metalina adentro dos pulmões
Na condensação da calma em suor

A minar as forças, acuam a autocensura!
E no torpor sentido se emaranha
Qualquer outro sentido consolador
Que o seu estágio clínico reverta

À cidade: improbabilidade;

De nunca esbarrar em paixões incondicionais
De alguns segundos duradouros
Entre tuas travessias

De no fim do expediente não olvidar-se
Dos prazos, e desfrutar boa companhia.
De não satirizar á si mesmo

Da cidade: ferocidade;

Na disparidade entre as classes
Que roteiriza tragédias traumáticas
Que destoam em síndromes coletivas

Na trajetória retilínea dos pássaros
Que se chocam nos pára-brisas
No endividamento da’lma sânie

Na cidade: oportunidade

De saldar os danos, a cicatriz.
De ir e vir-se a transformar
Na vivência solidária,não solitária

De argüir-se partidário do amicíssimo
E de, por fim, fender às persianas:
Para a cumplicidade!

Anúncios

Poesia corena: Sijô a poesia clássica

Uma das principais vantagens em habitar uma metrópole como São Paulo, è que ,apesar de tudo, a cidade transborda Cultura. Um exemplo disso aconteceu comigo recentemente, quando ao me abrigar da chuva  topei com uma exposição a respeito do alfabeto e da literatura coreana, no espaço literário “Haroldo de Campos” na paulista.Então,após uma palestra da especialista em língua coreana e tradutora Yun Jun Im,  resolvi aprofundar-me nas pesquisas e começar á postar algumas descobertas aqui na net:

Introdução

Primeiramente digo a vocês que o povo coreano possui um alfabeto próprio o Hangul, como informação relevante para a diferenciação do idioma da Coréia(e nesse caso não importa a discriminação politíca em Norte e Sul, porque  até 1953 só existia uma Coréia) com os outros idiomas orientais.

A história do Sijô nos remete a uma época em que o governo da península corena se dava pelas grandes Dinastias, entre elas a Koryó(918-1393) e a Yi(1392-1910).E começa uma fase de transição filosófica do Budismo para o Confucionismo.

Sobre o Sijô

O Sijô era uma arte restrista aos nobres e politícos,consolidando-se como arte no séc XIII de nossa era, e tradicionalmente repassado ao povo por tradição oral. A estruturação original básica do Sijô são 3 versos e em média 45 sílabas. Nas traduções para a língua portuguesa essa estrutura foi modificada para 3 estrofes e quatro grupos frasais(essa modificação foi feita para aferir o aspecto de correspondência entre o o diagrama sonoro original-melodia e fala).
As temáticas recorrentes nos sijôs são:- os dilemas e regras comportamentais do homem dentro dos ensinamentos do confucionismos; e posteriormente após sua popularização no séc XVIII- as temáticas amorosas, e de comtemplação da natureza.

(Fonte:texto elaborado com pesquisas e palestra e também com informações obtidas na antologia “Sijô:poesiacanto coreana clássica” de autoria de Yun Jung Im e Alberto Marsicano com colaborações especiais de Haroldo de Campos)

Alguns sijôs selecionados:

O sol se põe
no oeste
O rio deságua
no Mar do Leste

Os heróis
de todos os tempos
se findam
nos mausoléus

Deixa:é o curso natural de ascensão e queda
Haverá um modo
de detê-lo? (Tchwe Tchung-984-1068)

Dois budas de pedra
frente a frente
sem roupa
sem comida

sob o vento
sob a chuva
neve
geada

Ainda assim os invejo pois não conhecem
a dor humana
da separação (Jóng Tchór-1536-1593)

Reflexo
sobre a água:
Um monge
cruza a ponte

Monge,
um momento:
para onde
vais?

Apontou então a nuvem branca
e partiu
sem mais( anônimo)

Não te importes
em estender a esteira
pois folhas secas
se espalham no chão

Não acendas
a tocha
que a lua de ontem
já surge no céu

Não me digas,menino que não há vinho:
dá-me um copo, que beberei
entre estes montes verdes. (Han Ho-1543-1605)

—–
Obs: para você que estára em São Paulo(SP) até dia 30 nov. poderá conferir a exposição sobre o Hangul de dom á dom até 30 nov. na ‘Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura’ av.paulista,37 prox.metrô Brigadeiro

Ilustração do duplix

NICO & TINA//FU_MAÇA

Disparam o estopim//Fuligem nas artérias
Vindo até mim//bolo amorfo
Com suas delinqüentes: cara de tara//Desgraça,Miséria!

Fabio R.//Cil

então retirando-se as “barras”

a leitura fica:

NICO & TINA FU_MAÇA

Disparam o estopim fuligem nas artérias
Vindo até mim bolo amorfo
Com suas delinqüentes: cara de tara,desgraça,miséria!

*O desafio neste caso é o encaixe para que os dois autores em conjunto criem um “novo poema”

——–

Outro exemplo é o seguinte:

Vôos//Em turbilhão

Partem-se as correntes//escamas de serpente
O homem colhe nas mãos//delírios,mar adentro
A sua condição original: livre re__torna//num beijo,de Eros.
Fátima Mota//Fabio R
Tragi ou cômico? // Vida!!

Em cena://Meu sorriso pede bis.
Acena!//Com a alegria dos meus versos
O ciúme//derrete-se. Gotas de paixão permanecem.

Fabio R//Fátima Mota

Teoria literária -POETRIX


ORIGEM

O Poetrix é uma forma de manifestação poética idelizada pelo escritor baiano Goulart Gomes, conta-nos o autor que a idéia surgiu através de exposições/discussões sobre sua criação literária com seu amigo e pesquisador de Hai-Kai Aníbal Beça.Diz Goulart Gomes, no primeiro manifesto poetrix que a “fagulha” criativa surgiu a partir do seguinte comentário do amigo:”Goulart, pode chamar seus inventivos tercetos do que quiser, menos de Hai-Kais”.Então assim em 1999, apareceu a primeira menção “oficial” do estilo no livro “TRIX POEMETOS TROPI-KAIS, Goulart Gomes (Bahia: Pórtic).Sim meus amigos o POETRIX inicialmente foi lançado como uma “reação” antropofágica,uma “abrasileração” ao Haiko.Nas palavras do autor do livro: “O POETRIX vai muito além do ascetismo espartano do Hai-Kai. É isso o que trás este livro: poemetos tropi-kais, leves como quem vive abaixo da linha do Equador. Convido os poetas a exercitá-lo e os leitores a apreciá-los.”

Outra referência que foi citada pelo inventor para as origens do POETRIX são a inspiração no tradicionais tercetos italianos.E os “poemas minuto”, presentes na literatura brasileira.

POETRIX conceituação

poe=poesia, trix =três

O POETRIX é um poema composto de título e uma estrofe de três versos
(terceto) com um máximo de trinta sílabas métricas.São caracteristícas inerentes ao POETRIX:

– possuir apenas uma estrofe de três versos, com um máximo de 30 sílabas;
– o título é exigível, podendo complementar o texto ;
– não existe rigor quanto a métrica ou rimas (mas o ritmo é desejável);
– metáforas e outras figuras de linguagem, assim como neologismos, são uma constante no poetrix;
– geralmente há uma interação autor/leitor provocada por mensagens
subliminares;
– é minimalista, ou seja, procura transmitir a mais completa mensagem em um menor número de palavras;
– passado, presente e futuro podem ser utilizados sem distinção;
– o autor, as personagens e o fato observado podem interagir, mesmo
criando condições suprarreais, cômicas ou ilógicas (non sense).

*obs:o aglomerado de 3 frases coordenadas entre si não é POETRIX,nem os ditados populares,  o poetrix deve ser a menor expressão possível que sugestione o leitor a fazer sua(s) própria(s) interpretações sobre um tema escolhido por quem o escreve

POETRIX como forma de criação coletiva

Um dos maiores diferenciais do POETRIX em relação a outras formas poéticas e sua versatilidade na utilização como arte coletiva. Nas palavras de Goulart Gomes:” Um poetrix sozinho não tece uma linguagem ele precisará sempre de outro poetrix.De um que apanhe esse grito e o lance a outro que com muitos poetrix se cruzem os fios do sol e de seus gritos de poetrix para que a manhã desde uma teia tênue se vá tecendo.E se encorporando o estilo, entre todos, se erguendo o gênero, se multiplixando onde no toldo a poesia plana livre de armação.A poesia é um toldo de um tecido tão aéreo que,tecido,se eleva por si: inspiração”

São formas de interação coletiva:

Duplix:um poema resultante da junção de dois
Poetrix, preservando-se-lhes as independência e
características de composição.

Triplix: um poema resultante da junção de três
Poetrix, preservando-se-lhes as independência e
características de composição.

Multiplix: um poema resultante da junção de
quatro ou mais Poetrix, preservando-se-lhes as
independência e características de composição.

A Ciranda: série de poetrix temáticos de um ou de vários autores.

Variações do estilo

São variações do estilo criadas e adaptadas dentro do grupo do movimento poetrix:

Letrix:escrito com um título ou “tema poético” na vertical em até 7 letras,com um desfecho final na última “estrofe”

Palavratrix:consiste em encontrar palavras, do nosso idioma, que apresentem duplo sentido quando fracionadas em três versos. É preciso que se dê um título ao poema para que ele não perca uma das características fundamentais do Poetrix.

Grafitrix: poetrix ilustrado com foto, desenho ou montagem

Video: poetrix com animação visual

*além de Goulart Gomes são membros atuantes do MIP responsáveis por criações e adequações no estilo: Pedro Machado Cardoso, Marco Bastos,Aila Magalhães e Lorenzo G. Ferrari entre outros.

Fontes consultadas: Página pessoal de Goulart Gomes, Página do MIP(movimentopoetrix.com), Palavreiros(www.palavreiros.org) e material vinculado dentro do Grupo de discussão Poetrix

***

Minha relação com o POETRIX

Descobri o que é o POETRIX, ao acessar o site Recanto das Letras,hospedado pelo provedor UOL, para ler os textos de uma amiga,Gita Habiba, que conheci através do site que participo(Poesia e Companhia), então acessando o fórum de discussões do site RL achei a citação de Goulart Gomes como o ‘pai do estilo’, li seus textos e acessei as informações do estilo á partir de fontes citadas pelo autor.Então fui coligando informações na rede e dentro do grupo de discussão poetrix.Isso aconteceu no começo deste ano 2008.

MInha análise pessoal e que o estilo é extremamente versátil, servindo desde o humor ácido e  político, até para os momentos de reflexão, que ficam mais a cargo do leitor. Também é um estilo que privilegia a interação do leitor com a poesia, já que a subliminaridade estimula as múltiplas interpretações.Além do já citado papel do estilo como forma de interação coletiva.

Fabio R.

O italiano -Trilussa

Trilussa é o pseudônimo do escritor italiano Carlos Alberto Salustri,nascido na cidade de Roma em 1873.
Iniciou sua carreira literária aos 16 anos, com publicações no jornal alternativo “Rungartino”.

Seus poemas são,em sua maioria, de conteúdo político, recheados de ironias e um certo humor ácido,
porém não possuem o tom agressivo ou de ressentimento, que geralmente, permeia esse estilo de composição poética.

Isso porque Trilussa escreve seus poemas como pequenas fábulas, desta maneira a intenção crítica do autor
vai sendo assimilada de forma despretenciosa pelo  seu leitor.No Brasil o principal tradutor e divulgador da obra do poeta italiano, é Paulo Duarte que desenvolveu  uma antologia do autor no livro ” Versos de Trilussa(1973).Ed Brasiliense”.Nas páginas iniciais o tradutor descreve um pouco da sua relação com a poesia de Trilussa, discorrendo   posteriormete sobre a biografia do italiano.

Este livro reune poemas publicados entre 1922 e 1944, e traz em destaque dois poemas publicados um pouco
antes da morte do italiano(1950) são eles: “A Vespa Tereza” e ” O bom Reino da Esculhambação”, para todos os poemas do livro são mostrados também  os originais em italiano.
—-

A lesma

Exausta, a pobre Lesma da vanglória,
ao atingir o cume do obelisco,
disse,olhando da própria baba o risco:
Meu rasto ficará também na História!

Autarquia

Ao ver o inseticida nacional
nas mãos do negociante a Mosca diz:
-Isto foi feito pra fazer-me mal,
porém,como pe produto do país…

O Porco e o Burro

Um dia, o Burro vendo que o açogueiro
levava para matança um Porco amigo,
gemeu,em pranto:-Adeus ó companheiro!
tua lembrança ficará comigo!

-Qual?diz o Porco, a morte é uma alforia!
portanto,amigo,nada de tristeza,
até podemos nos rever um dia,
em qualquer mortadela a bolonhesa…


O Bom Reino da Esculhambação(Scocciacó)

-Querem a liberdade?…Tê la-ão!
Mequetrefe declara, ao ver-se feito
rei do bom reino da Escolhambação
Disto isto,enverga a farda,estufa o peito,
põe-se á sacada e fala à multidão:

Caros cupinchas!a partir de agora,
cada um fará o que for do seu agrado,
mesmo o que estava proibido outrora,
contanto que me deixem sossegado…
-Bravos!a multidão delira e chora:
soberanos enfim-a massa exclama-
de pleníssimo acordo com o programa!

Renova-se o governo, e se suprime,
com o voto do Partido Liberal,
uma parte do Código Penal,
conforme o figurino do regime.

Mas,certo dia, o mesmo povo viola
o pacto e vem de novo para a rua,
fazendo o rei pular como uma mola.
– Bolas!diz ele,se isto continua,
a mamata se vai e adeus viola!

Um tomou a palavra:-Majestade!
visto estar convencida toda gente
de que emperrou a roda novamente
queremos devolver a liberdade.
que um dia nos foi dada de presente;
nós queremos um homem positivo
que reforce o Poder Executivo!