Sobre Cinzas(sur cendres)

Recuperemos de início a atmosfera a um só tempo brumosa e seca,desgrenhada,onde desde que incessante a cria, o cigarro está
sempre enviesado.

A seguir, sua pessoa:uma pequena tocha muito menos luminosa
que perfumada, de onde se destacam e caem, em ritmo a determinar,
um número calculável de pequenas massas de cinzas.

Por fim, sua paixão:esse botão em brasa, escamando películas
prateadas, que uma bainha logo formada das mais recentes circunda.

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Crestado em seu declínio nosso bolo de quimeras, as primeiras vigílias do tempo rival apareceram diante dos olhos.Nada de limusine negra para nos arrebatar em seu rasto presunçoso.Destituição vale posse.

Uma fina poeira noturna mal perturbava o buço de teu querido rosto adormecido.O que vinha das estrelas não era teatral, mas observado.Minha timidez renascia sob aparências impecáveis que as geadas concedem às ervas em repouso no reverso dos planaltos glaciais.

O sofrimento comum apesar do aguilhão dos ecos rarefeitos, cantava o hino hialino.

A ovação final não foi para uma meia-luz sepulcral, mirífica vidraceira, mas para uma fileira de enguias com pressa de trocar o regato natal pelos rios de paredes desiguais.Lá, se agrupam os mieiros.No leito da corrente, passa o sangue, o virtuose do retorno.

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Poemas:

 O Cigarro- O partido das coisas(Francis Ponge) 

Longe de nossas cinzas-O nu perdido(René Char)

 

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