Sobre Cinzas(sur cendres)

Recuperemos de início a atmosfera a um só tempo brumosa e seca,desgrenhada,onde desde que incessante a cria, o cigarro está
sempre enviesado.

A seguir, sua pessoa:uma pequena tocha muito menos luminosa
que perfumada, de onde se destacam e caem, em ritmo a determinar,
um número calculável de pequenas massas de cinzas.

Por fim, sua paixão:esse botão em brasa, escamando películas
prateadas, que uma bainha logo formada das mais recentes circunda.

*

Crestado em seu declínio nosso bolo de quimeras, as primeiras vigílias do tempo rival apareceram diante dos olhos.Nada de limusine negra para nos arrebatar em seu rasto presunçoso.Destituição vale posse.

Uma fina poeira noturna mal perturbava o buço de teu querido rosto adormecido.O que vinha das estrelas não era teatral, mas observado.Minha timidez renascia sob aparências impecáveis que as geadas concedem às ervas em repouso no reverso dos planaltos glaciais.

O sofrimento comum apesar do aguilhão dos ecos rarefeitos, cantava o hino hialino.

A ovação final não foi para uma meia-luz sepulcral, mirífica vidraceira, mas para uma fileira de enguias com pressa de trocar o regato natal pelos rios de paredes desiguais.Lá, se agrupam os mieiros.No leito da corrente, passa o sangue, o virtuose do retorno.

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Poemas:

 O Cigarro- O partido das coisas(Francis Ponge) 

Longe de nossas cinzas-O nu perdido(René Char)

 

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A um jovem-por Carlos Drummond de Andrade

Prezado Alípio:

Ontem à noite, ao sair você de nosso apartamento, aonde veio em busca de sabedoria grega e só encontrou um conhaque e um gato por nome Crispim, assentei de reduzir a escrito o que lhe dissera. Aula de ceticismo?Não. Ele se aprende sozinho. A única coisa que se pode remotamente concluir do que conversamos é: não vale a pena praticar a literatura, se ela contribui para agravar a falta de caridade que trazemos do berço.

Por isso, e porque não adiantaria, não lhe dou conselhos. Dou-lhe anticonselhos, meu filho. E se o chamo de filho perdoe: é balda de gente madura. Pouco resta fazer quando não nascemos para os negócios nem para a política nem para o mister guerreiro.Nosso negócio é a contemplação da nuvem.Que pelo menos ele não nos torne demasiado antipáticos aos olhos de coletâneos absorvidos,Alípio, e saiba que eu o estimo:

I- Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

II- Ao escrever,não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo.Não arrombará nada.Os melhores escritores conseguem apenas reforça-lo, e não exija de si tamanha proeza.

III- Se ficar indeciso entre dois adjetivos,jogue fora ambos, e use o substantivo.

IV- Não acredite em originalidade, é claro.Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

V- Leia muito e esqueça o mais que puder

VI- Anote as idéias que lhe vierem na rua, para evitar desenvolve-las.O acaso é mau conselheiro.

VII- Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor do que o anterior.Quer dizer que o anterior não era bom.

VIII- Mas se disserem que seu novo livro é pior do que o anterior,pode ser que falem verdade.

IX- Não responda a ataques de que não tem categoria literária :seria pregar rabo em nambu.E se o atacante tiver categoria, não ataca,pois tem mais o que fazer

X- Acha que sua infância foi maravilhosa e merece ser lembrada a todo momento em seus escritos?Seus companheiros de infância ai estão, e têm opinião diversa

XI- Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com a soberba.Às vezes nenhum deles vale nada,e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo,ainda que se trate de um escritor

XII- O porteiro do seu edifício provavelmente ignora a existência, no imóvel de um escritor excepcional.Não julgue por isso que todos os assalariados modestos sejam insensíveis à literatura, nem que haja escritores excepcionais em todos os andares.

XIII- Não tire copias de suas cartas,pensando no futuro.O fogo, a umidade e as traças podem inutilizar sua cautela.

XIV. Procure fazer com que o seu talento não melindre o de seus companheiros.Todos tem direito à presunção de genialidade exclusiva.

XV. Fça fichas de leitura.as papelarias apreciam esse hábito.As fichas absorverão o seu excesso de vitalidade e não usadas, são inofensivas.

XVI. Se sentir propensão para o gang literário, instale-se no seio de sua geração e ataque.Não há policia para esse gênero de atividade.O castigo são os companheiros e depois o tédio.

XVII. Não se julgue mais honesto que seu amigo porque soube identificar um elogio falso, e ele não.Talvez você seja apenas mais duro de coração

XVIII. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganha-los, conferidos por juizes que seu senso critico jamais premiaria.

XIX. Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confudir-se com modéstia.Faça um teste:proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.

XX. Seja mais tolerante com o cabotismo de seu amigo;que sempre esconde uma deficiência, e só impressiona outros cabotisnos

XXI. Antes de reproduzir na orelha de seu livro a opinião do confrade,pense, primeiro que ele não autorizou a divulgação; segundo que a opinião pode ser mera cortesia;terceiro, que você não admira tanto assim o confrade

XXII. Quanto ao seu próprio cabotismo, ele esfriará se você observar que na hipótese mais cristã, é objeto de tolerância alheia.

XXIII. Procure ser justo com os outros; se for muito difícil,bondos;na pior eventualidade,omisso.

XXIV. Opinião duradoura é a que se mantém válida por 3 meses.Não exija mais coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto.

XXV. Procure não mentir, a não ser nos caos indicados de polidez ou pela misericórdia. È arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a 10 anos, se ficar famoso e se não ficar, não terá valido a pena

XXVI. Deixe-se fotografar à vontade, sem chamar os fotógrafos;não recuse autógrafos mas não se mortifique se não os pedirem.Homero não deixou cartas nem retratos, Baudelaire deixou uns e outros.O essencial se passa com outros pápeis.

XXVII. Você tem um diário para explicar-se:é assim tão emaranhado?para justificar-se no futuro:julga-se tão extraordinário?

XXVIII. Trate as corporações com cortesia, pois o mais provável é não ingressar nunca

XXIX. Aplique-se a não sofrer com o êxito do seu companheiro,admitindo embora que ele sofra com o de você.Por egoísmo,poupe-se qualquer espécie de sofrimento

XXX. Boa composição moral é a do orgulho e humildade; esta nos absolve de nossas fraquezas, aquele nos impede de cair em outras.Quanto aos santos-escritores é de supor que foram cononizados apesar da condição literária

XXXI.Seja discreto.È tão mais cômodo!

Fonte: Coleção fortuna crítica 1-Carlos Drummond de Andrade-1978 , vários autores;também disponível em:Poesia Completa e prosa.Aguilar-1973

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Prologo
Aos potentores do credo destino epístola!
Dum agnóstico trazendo as notas d’lém crença!

I

Já aportaram as naus e não me tragaram a gargântua
Nem brumas ou demônios ceifaram a tripulação
Por isso decifrei calúnias e desvencilhei amarras
Ao desposar a ciência, abdicando da promessa
Feita por fortuna á senil mística!

Sim, eclesiásticos!Anunciem que viuvou!
Seu decrépito abraço as hierarquias do Panteão!
E que também expirou a validade do seu Messias
Por isso aconselhem-á eutanásia!

Pois, nestas matas conforta-me o colo duma prenda lógica.
As ventanas e os tapumes não censuram a face púbere
Das metodologias, formulações e evidências!

Com isso esculpo-me incrédulo, ateu, herege ou fatalista!
Como convenha assim nomear-me, de imediato a tua vontade!

Enquanto condecoro á meu general o empirismo!
O imediatismo que os sentidos devoram!