A um jovem-por Carlos Drummond de Andrade

Prezado Alípio:

Ontem à noite, ao sair você de nosso apartamento, aonde veio em busca de sabedoria grega e só encontrou um conhaque e um gato por nome Crispim, assentei de reduzir a escrito o que lhe dissera. Aula de ceticismo?Não. Ele se aprende sozinho. A única coisa que se pode remotamente concluir do que conversamos é: não vale a pena praticar a literatura, se ela contribui para agravar a falta de caridade que trazemos do berço.

Por isso, e porque não adiantaria, não lhe dou conselhos. Dou-lhe anticonselhos, meu filho. E se o chamo de filho perdoe: é balda de gente madura. Pouco resta fazer quando não nascemos para os negócios nem para a política nem para o mister guerreiro.Nosso negócio é a contemplação da nuvem.Que pelo menos ele não nos torne demasiado antipáticos aos olhos de coletâneos absorvidos,Alípio, e saiba que eu o estimo:

I- Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

II- Ao escrever,não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo.Não arrombará nada.Os melhores escritores conseguem apenas reforça-lo, e não exija de si tamanha proeza.

III- Se ficar indeciso entre dois adjetivos,jogue fora ambos, e use o substantivo.

IV- Não acredite em originalidade, é claro.Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

V- Leia muito e esqueça o mais que puder

VI- Anote as idéias que lhe vierem na rua, para evitar desenvolve-las.O acaso é mau conselheiro.

VII- Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor do que o anterior.Quer dizer que o anterior não era bom.

VIII- Mas se disserem que seu novo livro é pior do que o anterior,pode ser que falem verdade.

IX- Não responda a ataques de que não tem categoria literária :seria pregar rabo em nambu.E se o atacante tiver categoria, não ataca,pois tem mais o que fazer

X- Acha que sua infância foi maravilhosa e merece ser lembrada a todo momento em seus escritos?Seus companheiros de infância ai estão, e têm opinião diversa

XI- Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com a soberba.Às vezes nenhum deles vale nada,e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo,ainda que se trate de um escritor

XII- O porteiro do seu edifício provavelmente ignora a existência, no imóvel de um escritor excepcional.Não julgue por isso que todos os assalariados modestos sejam insensíveis à literatura, nem que haja escritores excepcionais em todos os andares.

XIII- Não tire copias de suas cartas,pensando no futuro.O fogo, a umidade e as traças podem inutilizar sua cautela.

XIV. Procure fazer com que o seu talento não melindre o de seus companheiros.Todos tem direito à presunção de genialidade exclusiva.

XV. Fça fichas de leitura.as papelarias apreciam esse hábito.As fichas absorverão o seu excesso de vitalidade e não usadas, são inofensivas.

XVI. Se sentir propensão para o gang literário, instale-se no seio de sua geração e ataque.Não há policia para esse gênero de atividade.O castigo são os companheiros e depois o tédio.

XVII. Não se julgue mais honesto que seu amigo porque soube identificar um elogio falso, e ele não.Talvez você seja apenas mais duro de coração

XVIII. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganha-los, conferidos por juizes que seu senso critico jamais premiaria.

XIX. Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confudir-se com modéstia.Faça um teste:proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.

XX. Seja mais tolerante com o cabotismo de seu amigo;que sempre esconde uma deficiência, e só impressiona outros cabotisnos

XXI. Antes de reproduzir na orelha de seu livro a opinião do confrade,pense, primeiro que ele não autorizou a divulgação; segundo que a opinião pode ser mera cortesia;terceiro, que você não admira tanto assim o confrade

XXII. Quanto ao seu próprio cabotismo, ele esfriará se você observar que na hipótese mais cristã, é objeto de tolerância alheia.

XXIII. Procure ser justo com os outros; se for muito difícil,bondos;na pior eventualidade,omisso.

XXIV. Opinião duradoura é a que se mantém válida por 3 meses.Não exija mais coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto.

XXV. Procure não mentir, a não ser nos caos indicados de polidez ou pela misericórdia. È arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a 10 anos, se ficar famoso e se não ficar, não terá valido a pena

XXVI. Deixe-se fotografar à vontade, sem chamar os fotógrafos;não recuse autógrafos mas não se mortifique se não os pedirem.Homero não deixou cartas nem retratos, Baudelaire deixou uns e outros.O essencial se passa com outros pápeis.

XXVII. Você tem um diário para explicar-se:é assim tão emaranhado?para justificar-se no futuro:julga-se tão extraordinário?

XXVIII. Trate as corporações com cortesia, pois o mais provável é não ingressar nunca

XXIX. Aplique-se a não sofrer com o êxito do seu companheiro,admitindo embora que ele sofra com o de você.Por egoísmo,poupe-se qualquer espécie de sofrimento

XXX. Boa composição moral é a do orgulho e humildade; esta nos absolve de nossas fraquezas, aquele nos impede de cair em outras.Quanto aos santos-escritores é de supor que foram cononizados apesar da condição literária

XXXI.Seja discreto.È tão mais cômodo!

Fonte: Coleção fortuna crítica 1-Carlos Drummond de Andrade-1978 , vários autores;também disponível em:Poesia Completa e prosa.Aguilar-1973

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Discussão-poesia contemporânea

Da retradicionalização dos anos 80 ao pluralismo poético dos nossos dias, a poesia contemporânea se cristalizou de tal maneira que quase todos os seus procedimentos e técnicas se tornaram anacronismos, isto é,recursos poéticos que prescindem da experiência e da própria poesia,reduzidos ao culto de gêneros, referências e alusões a si mesmos13. Enfim,o idioma da poesia está hoje pacificado, e nesta atitude de aceitação consumista de todo o legado da tradição (moderna e antiga) o dado novo é que a criação poética vai se tornando cada vez mais uma tradição zelosa de si e de seus próprios valores.

Por paradoxal que pareça, agora a meta é revalorizar a competência lírica, o cuidado artesanal, uma pretensa elevação da dicção, baseada na reapropriação de estilos anteriores datados,retomando-se a idéia mais edificante de poesia como forma e conteúdo —como se a literatice tivesse agora outro fôlego, podendo até revitalizar tradições que pareciam superadas, como o beletrismo e o preciosismo verbal. Na falta de qualquer antagonismo, o que conta é uma certa adequação psicológica de cada linguagem previamente existente ao temperamento, cada autor exercendo sua preferência dentro das opções prontas da tradição. Tudo converge para um lirismo e um expressionismo debilitados, os quais acenam com um direito ilusório à liberdade de poetar, mas destituído de maior compromisso com o sujeito que os pratica, o que, no meu modo de ver, realiza a libertação formal dos modernos como farsa, em estado permanente de creative writing.

Nesse pluralismo estético, o arsenal vanguardista de procedimentos fragmentários, paratáticos, assindéticos, passa a servir à meditação existencial, à reflexão sobre a linguagem, à depuração formal, à elevação da língua (para ocultar a miséria do seu

ensino e a falência da educação pública), com muito respeito pelos gêneros

canônicos.

E agora, neste último ano do século, na situação de pós-catástrofe em que vivemos às vésperas dos 500 anos do Brasil, ficamos a perguntar o que poderá ser o novo, ou o que está ocupando o seu lugar. Sem pretender dar conta das possibilidades existentes, nem desmerecer o empenho dos poetas atuais em sua incansável “procura da poesia”, desconfio que o novo, pelo menos no campo específico da produção poética, está circunscrito a formas e estratégias de atuação literária cujas linhas gerais podem ser assim delineadas:

a) é a liberdade de circular por todos os movimentos e propostas anteriores, sem restrições e sem dramas, em jogos de linguagem que atropelam as historicidades. Multiplicaram-se os tradicionalismos, todos modernos, em cujas opções estéticas atenuadas identificamos a aparência de exigência formal e riqueza de tendências — fenômeno que se impôs com a retradicionalização frívola da poesia nos anos 80, contra o rebaixamento do poético e o desleixo formal da poesia marginal;

b) é a identificação com os rótulos modernos, sem as inquietações e os sentidos

críticos de origem, rótulos estes quase sempre traduzidos em falsas continuidades ou superações pós-modernas;

c) é a integração tranqüila no horizonte do mercado, rendição que em muitos casos passa por consciência crítica. E o mais curioso é o culto da liberdade abstrata de se integrar, seja pela identificação com autor ou tendência prestigiosos, nacionais ou

estrangeiros, seja buscando um lugarzinho ao sol no movimento editorial internacional, seja ainda por meio de gangues ou lobbies que infestam a universidade e a mídia por igual. Inscrever-se na tradição passou a ser uma forma de inserir-se no mercado editorial, de ganhar reconhecimento e lugar nesse negócio da poesia que, ao fim e ao cabo, não passa de um oficialismo desprovido de Estado e burguesia — e não é no mínimo estranho que o bandeirismo, o drummondismo, o cabalismo, o concretismo, o leminskismo etc. se tenham tornado griffes? (que digo eu, a poesia entrou na corrida do prêt-à-porter?) E nos contentemos com esta circunstância cômoda, em que o (supostamente) novo hoje não pode ser senão a reprodução ingênua,sofisticada ou cínica do sempre-igual do mercado?

Fonte:

CONSIDERAÇÕES SOBRE A POESIA

BRASILEIRA EM FIM DE SÉCULO

Iumna Maria Simon

REVISTA NOVOS ESTUDOS CEBRAP

nº 55 -nov 1999-

Ensaio sobre poesia

‘Galáxias’ e a seqüência poética moderna

Ensaio por Flora Süssekind
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Um depoimento, de 1986, sobre Mário Faustino, incluído por Haroldo de Campos
quarta edição de Metalinguagem, talvez possa servir de ponto de partida estratégico
para a compreensão não apenas do projeto das Galáxias (1963-1976), mas sua
continuada preocupação com o poema longo e com formas dinâmicas de estruturá-lo,
de que são exemplares desde Thálassa Thálassa (1951) e Ciropédia ou A educação
do príncipe (1952), ambos anteriores ao movimento concretista, ao belíssimo
Finismundo: A última viagem (1980-1990) ou à recente experiência com as formas de
associação e encadeamento da “renga” japonesa em “Renga em New York” (1994).

Um dos aspectos mais curiosos de “Mário Faustino ou a impaciência órfica” é o
caráter quase dialógico que o texto vai assumindo aos poucos. Como se Haroldo de
Campos, em meio ao balanço de suas relações com Faustino e ao comentário, em
linhas gerais, do seu trabalho na página “Poesia Experiência” e do seu projeto poético,
o tomasse, subitamente, de novo, como interlocutor. O que chama a atenção não só
para a atualidade, o interesse da reflexão faustiniana sobre poesia, mas para a
importância que sobretudo um de seus pontos fundamentais – a pesquisa da forma
mais extensa – parece ter para o próprio Haroldo. E, na verdade, ao tratar da opção de
Faustino pela “vasta medida”, Haroldo de Campos vai sugerindo, ao mesmo tempo, no
seu depoimento, por via negativa, métodos próprios, diversos, de reincorporação do
narrativo à prática poética.

E, nesse sentido, Haroldo de Campos procura opor, de saída, às noções de quantidade
e extensão à hipótese de um “epos sintético” e de uma organização seqüencial não
linear para o poema. Em seguida, criticando a escolha faustiniana de Invenção de
Orfeu, mesmo com ressalvas, como paradigma ideal para o seu projeto épico, pois,
para Haroldo, tanto o poema de Jorge de Lima, quanto o Canto Geral, de Neruda,
seriam “poemas cumulativos, com mais desníveis que altitudes, desarticulados, que
jamais se propuseram à questão da estrutura, base para quem quer que intente um
epos ou mesmo um poema cosmogônico-órfico no mundo da modernidade”. E, se
elogia a aproximação faustiniana do Barroco, manifesta numa “voragem mitopoética da
metáfora” e no interesse por sua “densa polimorfia”, lamenta a fato de faltar a ele “um
nexo mais contemporâneo, que facilitasse a transição, no plano do presente da criação,
da lição do Coup de Dés de Mallarmé e daquela haurida nos Cantos poundianos”. E
de não ter alcançado plenamente uma “síntese original entre a vocação para o poema
longo e o desejo de concentração da linguagem e de coisificação da palavra”.

São essas, também, as questões que acompanham o projeto das Galáxias. E que se
acham tematizadas, indiretamente, no comentário sobre Mário Faustino. Tensões a
que se poderia acrescentar outra, fundamental à idéia mesma de um projeto épico:
entre o poético e o narrativo. Pois, se a fórmula de Poe (”a brevidade deve estar na
razão direta da intensidade do efeito pretendido”) e a reiterada exigência de exclusão
do narrativo (vide o “on évite le récit” de Mallarmé ou um texto como “Situation de
Baudelaire” de Valéry) têm limitado a compreensão do poético à lirica, à simples idéia
de um poema longo, como assinala Marjorie Perloff, retomando Poe, parece ter se
convertido, na literatura moderna, numa espécie de “contradição em termos”.

Essa contradição parece acentuar-se, porém, quando se observa que, ao lado dessa
redução da poesia à lírica, tem-se afirmado, na prática poética moderna, um “gênero”- a
seqüência – cuja expansão desmente a regra. Pois, mesmo quando baseada numa
orientação lírica, parece apontar para uma renarrativização e para um
redimensionamento da temporalidade poética, contrastando-se expressão e fabulação,
momento e sucessão. Bastando lembrar, nesse sentido, de textos como Song of myself,
de Walt Whitman, The Waste Land, de Eliot, Mauberley e os Cantos, de Pound,
Paterson, de William Carlos Williams, The Bridge, de Hart Crane, ou de um poema
como Du Mouvement et de l’ immobilité de Douve, de Yves Bonnefoy. Exemplos a
que se pode acrescentar ao das Galáxias, de Haroldo de Campos.

“Íntima, fragmentária, auto-analítica, aberta, emocionalmente volátil, a seqüência vai de
encontro às necessidades da sensibilidade moderna mesmo quando o poeta aspira
perspectiva trágica ou épica”, comentam M. L. Rosenthal e Sally M. Gall na sua
tentativa de síntese da história do gênero na poesia de língua inglesa. Mas se a
adjetivação parece abrangente, se é correta a ênfase, por parte de ambos, na complexa
dinâmica, baseada num conjunto de “centros irradiadores”, que orientam muitas
dessas seqüências, parecem, no entanto, retomar a oposição entre o poético e o
narrativo, reduzindo a poesia ao lirismo, ao sublinharem a liberação de tais textos de
uma “estruturação temática ou narrativa”. Como se narrativo fosse sinônimo de linear,
contínuo. Ou como se narrativo fosse exclusividade da prosa. E quando, na verdade,
um dos aspectos fundamentais dessas seqüências e da retomada crítica do poema
longo é o fato de forçarem uma redefinição do horizonte poético e uma
problematização das oposições entre breve e longo, expressão e representação, poesia
e prosa que lhe têm servido de fronteiras.

Nesse sentido, o fragmento 43, da edição da Ex-Libris (1984), das Galáxias é exemplar,
como já assinalou o próprio Haroldo de Campos em entrevista a Carlos Rennó. Nele,
brincando com o duplo sentido (sexual e literário) da palavra “gênero”, a perseguição
a um travesti romano é simultaneamente aos travestimentos textuais, isso num texto
que é, ele mesmo, lingüística (pois mistura vertiginosamente italiano e português) e
literariamente (pois, prosaico, move-se, no entanto, por proliferação imagética),
híbrido. Exemplares, desta vez, da tensão entre fabulação e fragmentação, são os
fragmentos 8 e o 25, o primeiro sobre a pequena prostituta paraibana, esfaqueada,
pobre, e “miss stromboli”, estrangulada, em Genebra, notícia do dia, o segundo, relato
da viagem de carro do “americano louco crazy”, “mal sabendo guiar”, ao México. Pois
se, nos dois casos, tem-se, na verdade, histórias até certo ponto regulares, sua
construção obedece a recursos não lineares. No relato, em crescendo, de viagem,
pautando-a pela analogia entre a viagem e o próprio “textoviário”, e por um processo
de sistemática repetição com variações (como em “e você e harry e sara e crianças”, “e
sara e harry e você para toluca e crianças”); no caso das moças assassinadas na
Paraíba e na Suíça, por meio de uma justaposição vertiginosa de paisagens e
cadáveres, assinalada, no entanto, a despossessão da paraibana (sem nome de guerra,
nenhum cachorro), “o semelhante semelhando no dissemelhante”.

“O semelhante semelhando”: é, a princípio, em escala mínima, sonora, tonal, que se
pode visualizar a estruturação das Galáxias. Mas, de uma semelhança sonora
(ovo/novo, signo/sino, nem/trem, penas/antenas/galenas/pequenas), desdobram-se
diferenças (linde/deslinde), analogias sintetizam-se em neologismos (”aoléuviagem”,
“caleidocamaleoscópio”, “babelbarroca”) por vezes contraditórios (”perdeganhava”),
em dissemelhanças (como entre miss stromboli e a moça paraibana), por vezes
convertendo-se essas justaposições em eficientíssimo recurso de aceleração do ritmo
narrativo ou de visualização, como na referência aos nomes de judeus mortos,
inscritos numa parede, como uma espécie de renda –
‘nomessobrenomessobrenomesssobrenomes e são todos os mortos todos os
milmuitosmortos como um arabesco”.

Mas se o que chama a atenção, de saída, são as montagens de palavras e imagens, as
proliferações, as metamorfoses de palavras, imagens e figurantes, os muitos “e”, a
organização em fluxo dos cinqüenta fragmentos, as micro-histórias que se esgarçam
em cada um deles, dando ao conjunto do livro o caráter de “epos sem história”, é, na
verdade, o método geral de composição o que distingue a seqüência poética de
Haroldo de Campos. Pautado nas tensões entre extensão e concentração,
desdobramento e intensidade, improvisação e articulação, seqüência e configuração,
Haroldo as transforma em elemento estruturante, interativo, autocrítico, quebrando
linearidades por meio de uma espécie de excesso figural, de auto-anulação, pela
própria dimensão fixa de cada bloco, de qualquer hipótese de intriga, e contrariando,
via extensão serial, via moto contínuo, a forma tradicional de enquadramento lírico. E
parecendo dramatizar, assim, na estruturação mesma das Galáxias, a redefinição de
horizonte, impelida em parte pelo retorno ao narrativo, a que se vem submetendo a
poesia contemporânea.

Copyright (c) 1995, 1996, Jornal do Brasil, Primeiro Jornal Brasileiro na Internet!

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Obtido em : Jornal da Poesia http://www.revista.agulha.nom.br/fsussekind01.html
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Flora Süssekind é crítica literária e pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, autora, entre outros, de “A Voz e a Série” (7 Letras) e “Cinematógrafo de Letras” (Companhia das Letras).

CRÍTICA SOBRE A QUESTÃO MUSICAL E SOCIAL

Escrito Por Paulo Renato C. Rico


No entanto, o que há de novo no vasto mundo da música ? Ainda temos algo que agrade aos ouvidos ? Essas perguntas são mais complicadas do que parece; um bom ouvinte irá concordar que os clássicos da MPB e do velho Rock & Roll morreram no inicio dos anos 80 e que, desde então, surgiram grupos ou artistas fabricados e descartáveis. Onde estarão os verdadeiros artistas ? No geral, as pessoas vivem na rotina do tédio e do ócio, são tão vazias como o nada.
Na maiorias das vezes, há conflitos entre o bem e o mal, em todos os sentidos, música, futebol, família, política, etc. Quem serão os culpados ? A mídia ? A falta de cultura ? A tecnologia ou à falta de interesse da sociedade ? Como diria Raul Seixas em uma de suas canções : “é pena não ser burro, não sofria tanto”. Disse com toda razão, os esclarecidos são pessoas que não tem espaço e que, pessoas ociosas sofrem bem menos do que se possa imaginar. Quem houve grupos ou artistas atuais, encontrarão letras ridículas e muitas vezes, pornográficas, não acrescentam nada em termos de cultura e informação, levam os ouvintes ao mais baixo nível do que já é o ser humano. Não há dúvida que, os interessados da boa cultura e informação são tão inúteis como…???
A verdade é algo que ofende todo mundo, no entanto, se o meio artistico atual tem o direito de ofender e humilhar pessoas de bom senso, dignidade e moral, temos também o direito de defesa e, se alguém sentir-se ofendido, o problemas não é meu !

 

Todo o jornal que eu leio, me diz que a gente já era, que já não é mais primavera, oh baby, a gente ainda nem começou.”

Raul Seixas

 

 

Será que alguém tem esperança de algo bom e positivo possa sair da espécie humana diante das parafernálias do mundo e do caos que habita a mente ? Obviamente, quem luta por justiça, honestidade e igualdade compreende as desgraças dominantes e certamente busca o melhor para si e para à sociedade, ao invés da disputa econômica e da falsa estética da beleza.
Falar de música não é só comentar sobre ela, e sim, compreender o que se passa em torno dela, pois a música ou qualquer outro tipo de veículo de massa, são caracteristícas de problemas sociais e mundial, é o retrato do que está sendo mostrado e ensinado. Bom ou ruim ? Depende do nível mental que cada um alcança.

 

“Lá vou eu de novo, um tanto assustado com Alí-Babá e os quarenta ladrões, já não querem nada com a Pátria Amada e, cada dia mais, enchendo meus botões.” Raul Seixas 
A música precisa passar por uma reforma imensa, assim como o ser humano. Se não houver consciência suficiente para excluir os lixos da sociedade, certamente à cultura e o bom senso morrerá sem esperanças de ver um mundo menos trágico e violento. Será o apocalipse da mente humana ?

 

Eu devia estar contente, por ter conseguido tudo que eu quis, mas confesso abestalhado, que estou decepcionado.” Raul Seixas 
02 de Abril de 2006

 

 

SENTADO À MESA DO ROCK

Artigo Por *Paulo Renato C. Rico

Numa cidade onde o problema é a auto-identificação, muitas pessoas fazem grupos de rock destinados à compartilharem com outras pessoas dificuldades idênticas. Mas, não existe muita diferença entre o artista e o público. Infelizmente, muitos acham que o artista sabe e conhece coisas ocultas, o que não é verdade. Simplesmente, o artista deve ter o ego seguro para que as pessoas o amem pelo o que faz, e não pelo o que é. O artista tem sentimentos próprios, mas, acha que, fora do palco ou da tv, ele se apaga, se torna vazio e comum. Todos nós somos idênticos, não somos ?

Kurt Cobain, construiu um novo império, mas, durou tempo demais, tempo suficiente para sentir o vazio do tédio e do ócio. Quem trabalha das oito às seis, não sabe a sorte que tem. Quando tenho um tempo livre, eu o aproveito o máximo possível. Mas, o que há de excepcional nisso ? Simplesmente o fato de ser ocasional e raro.

Lembro-me dos primeiros tempos do “Nirvana”, eu tinha acabado de me alistar no exército, quando a febre do album “Nevermind” estorou nas cabeças dos adolêcentes daquela época. Às pessoas então começaram a usar cabelos compridos novamente, como nos anos 70, e conhecíamos uns aos outros. Lá estava eu, tentando me livrar do alistamento militar, quando três rapazes invadiram à nova onda do rock alternativo. Amigos, músicos e poetas locais se reuniam no fim de semana para discutir e lerem seus poemas e onde os mais velhos vinham pegar suas garotinhas e onde eu ia beber em mémoria de mais uma semana desperdiçada. Eu estava no mundo de Karl Marx, Kant e Descartes, era o que havia de mais importante para mim, assim com a música dos anos 60 , 70 e algumas coisas que restaram dos anos 80. Primeiramente o “Nirvana” surgiu como novidade, depois como um modo de vida; calças rasgadas e camisetas flaneladas, um modo de viver que cresceria junto com o mito dos anos 90, Kurt Cobain.

Enfim, escapei do exército e comecei prestar atenção no som da banda de Seattle. Será que Kurt Cobain jamais soube como ele mudou à música na década de 90 ? Será que estava preso no seu próprio mundo ? Ou será que foi um golpe de sorte que poderia ter acontecido com qualquer um ? Nunca saberemos, e se ele sabia jamais diria.

Se Kurt não tinha nada a ver com o sucesso do “Nirvana”, então sua morte pode ser compreendida com mais clareza. Podemos imaginá-lo inútil, sentindo-se talvez como um joguete das circunstâncias, sentindo que não tinha coisa alguma à oferecer. Será que fracassou em seu desejo de ser músico ? Lembro-me dele nos programas de tv, desanimado, deslocado e ao mesmo tempo inquieto.

Mas, talvez ele fosse realmente um gênio, como muitos dizem, tornou-se líder supremo de uma geração. Se ele era um grande inovador exprimindo suas vontades e trazendo honestidade a um meio corrupto e caótico, muitos devem ter sofrido quando ele resolveu tirar a própria vida com um tiro na cabeça. O que haveríamos de fazer depois dessa tragédia? Acabaram as excursões, as intrigas, os planos, os truques e o mito. Antes de morrer, teria ele ficado sozinho e depressivo, debruçado sobre músicas colossais, tentando encontrar as palavras certas para suas canções ?

Será que o público já sabe que, na idade em que se encontram os artistas, estão hoje com uma vida definida; segurança, família, um emprego ? Muitos já são casados e têm um filho ou dois e estão com suas vidas ordenadas, alguns com finalidade, outros não. Isso acontece com as pessoas que são menores ou maiores, ou pelos menos, muito diferente de mim e de você. E no entanto, não há filho mais delinquente, não há família mais caótica do que a platéia que se senta à mesa do rock.

Quem exprime suas emoções com tanta violência ? Se a platéia do rock é apenas uma única e imensa pessoa, você precisa ser forte – se é um músico – para não depender dela. Se você subir num palco procurando amor, prepare-se, ou como diria os analistas, não dependa de ninguém, nem de seus amigos e nem do seu amor, porque a frustação só pode ser vivida de um modo violento. Se há alguma falha, então as energias são empregadas para copiar os piores aspectos da pessoa, e em breve tanto a mente, como o corpo estão exaustos. Então, corremos para o quarto para colocar a cabeça em ordem, para tentar segurar a barra, para encontar uma saída.

Como é verdade ! Você não pode corresponder às expectativas de todo mundo, que você não pode ser tudo para todos. E se é verdade que você não pode ser outra coisa, a não ser o que você é. Então, deve ser forte se pretende colocar essas coisas num palco, em público, diante “deles” que esperam e prevêem o tempo todo a queda de seus ídolos. E se é verdade, é inevitável e triste, e nada pode ser feito para eliminar vícios tão antigos e que os grandes heróis estão todos embalsamados, mortos com seus segredos.

 

 

Talvez queria afirmar sua competência perante os outros e perante a si mesmo.

 

 

 

 

19 de Abril de 2006*Mais matérias do novo colaborador do site alguma musica podem ser conferidas em :www.pensamaentoalternativo.zip.net