Saudação ( por Ferlinghetti)

from r7

A cada animal que abate ou come sua própria espécie.
E cada caçador com rifles montados em camionetas
E cada miliciano ou atirador particular
com mira telescópia

E cada capataz sulista de botas com seus caes
& espingardas de cano serrado
E cada policial guardião da paz cpm seus cães
treinados para rastrear & matar

E cada tira à paisana ou agente secreto
co su coldre oculto cheio de morte
E cada funcionário público que dispare contra o público
ou que alveja para matar criminosos em fuga

E cada Guardia Civil em qualquer pais que guarda os civis
com algemas & carabinas
E cada guarda-fronteiras em tanto faz qual posto de barreira
em tanto faz qual lado de qual Muro de Berlim

E cada soldado de elite patrulheiro rodoviário em calças de
equitação sob medida & capacete protetor
de plástico & revólver de coldre ornado
de prata

E cada radiopatrulha com armas antimotim & sirenese cada tanque
antimotim com cassetetes & gás lacrimogênio
E cada piloto de avião com foguetes &napalm sob as asas
E cada capelão que abençoa bombardeiros que decolam

E qualquer departamento de Estado de qualquer superestado que vende
armas aos dois lados

E cada Nacionalista em tanto faz que Nação em tanto faz
qual mundo Preto Pardo ou Branco
que mata por sua Nação

E cada profeta com arma de fogo ou branca e quem quer que reforce
as luzes do espírito à força ou reforce o poder
de qualquer estado com mais Poder

E a qualquer um e atodos que matam& matam& matam& matam
pela Paz

Eu ergo meu dedo médio
na única saudação apropriada

Prisão de Santa Rita,1968

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Poemas de Antônio Cardoso(Angola)

DRAMA NA CELA DISCIPLINAR

A aranha monstruosa está com apepsia:
Dou-lhe a aorazada mosca sempre à hora habitual
Mas não galga o violino como já fazia,
Solerte, amarela e negro,para a fatal
Deglutição, e só já reage à terceira
Fumarada do meu cigarro.Enfim, zangada:
não me lenbrei ver se aquela insulsa rameira,
já tonta, qu elhe dei,estaria tocada
Pelo insecticida de horas anres.Farrricoco
De moscardos à boa vida ou domador
Falhado, restm-me as paredes e eu-oco
No cerne-estes fonemas a does, o calor
E o frio, a loucura os janízaros bem pouco
Amogos, a colite, os versos sem valor…

ABANDONO VIGIADO

ler O’Neil
aqui na prisão,
é como cuspir na careca dum burguês
(francês, portugês ou angolês,
tanto fez ou faz….)
empanturrado de consideração…
portanto, meu rapaz,
desculpa a sem cerimónia,
e puxa-me de cachimmónia,
o sumo de limão
do verso que te aparaz…

MAGO

chispa uma estrela
no isqueiro
-camarada rotineiro
de sonho avulso e barato
na minha cela-
e por um segundo
sou o mago, insulso,
aziago e pacato,
que neste dia amrgo
crispa na mão fechada
a mais bela e amada
estrela do mundo…

Fonte:Poesia Africana de Língua Portuguesa(Antologia)

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Biografia Resumida

História da Poesia Angolana(60/79)

Manifestações Literárias Angolanas(doutorado Papparoto,T.A)

Carta a Stalingrado

 

(Carlos Drummond de Andrade,Brasil 1943)

Stalingrado…
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

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De Primavera em Leningrado

(Margarita Aliguer,U.R.S.S  1942)

No curso daquele longo inverno
você repetia, voz serena
esmagando-lhe a treva de ferro:
“resistiremos.Somos de pedra”.

Estreitava-se o anel venenoso.
O inimigo sempre mais chegado.
podíamos vê-lo rosto a rosto,
feroz. como fazem os soldados.
Leningrado sem luz e sem água!
Rações de pão:cento e vinte gramas…
Como animal ferido o céu gane,
céu mortiço,nuvens estagnadas.
As pedras suspiram,
lajes ringem,
e a gente encontra forças e vive.
os mortos se empilham, um a um,
guerreiros numa cova comum
Afinal cansou-se o próprio inferno
das bombas.Mortas.Não resistiram.
E vamos nós dois passando pontes
sob a asa triunfal de maio,
você se alegrava sem dar conta
do porquê desse sentir-se gaio.
Uma nuvem mostrou-se no alto,
uma brisa esfriou-nos os lábios

Falávamos ambos num sussuro
do tempo passado e do futuro
vademaos uma longa treva,
passamos pelas balas em crivo:
você dizia “Somos de pedra”
è mais do que pedra.
Estamos vivos.


Contém(Tomato Brain)

Campbell's Soup Cans-Andy Warhol(1962)
Campbell's Soup Cans-Andy Warhol(1962)

No flerte outdoor,

a pluralidade de existência.

para mim assistência

ofegando em armadura,

os pontos:


————–cessuram,

——————— censuram,

——————————– se surram


e todo o redor?

é só postura

atura

pura desventura …..

as datas,nas latas, nas atas


almejam,

afinal, no tomo provinciano:

as cenas

—–HOLLYWOOD

————————–-HIENAS!

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direitos autorais reservados á Fabio R..(BN-2009)

SEM PRAZO

capa do livro-poemas Maiakóvski( campos, H;campos,A. e Schnaiderman,B)
capa do livro-poemas Maiakóvski( campos, H;campos,A. e Schnaiderman,B)

“Primeiro é preciso transformar a vida, para cantá-la em seguida.”

V. Maiakovski


Já deveria mutilar aquele verso,
Que no berço, cerra o punho, irrequieto
O feto confesso do mau intelecto.
Meus sonhos de fortuna ao peito, transverso!
 
Oh!Pedante clamor da ascensão moral,
Mergulho todo mau verbo á etiqueta.
Direto a correnteza armo olhos de seta
Pra á curto prazo desonerar teu aval!
 
Dispo-me a zona de conforto tal qual
Maior pupilo do conservadorismo
Sucumbido a uma trama incidental.
 
Por estar em um momento tão disperso,
Dos prazos e das metas do consumismo:
Sou tentado a libertar todo universo!

Dissidências

Poster Soviético em alusão ao festival do trabalho maio,1920(autor Dimitri Moor)
Poster Soviético em alusão ao festival do trabalho maio,1920(autor Dimitri Moor)

No alvo da metrópole as posses,
decolam para mim e não para o outro,
que molambo na rua vive do escambo .

Não há outro, cozinhando as favas
e nada retendo aos dias ainda “in útero”
na coluna das dissidências;
rebate um fulgor ressabiado!

Alveja a matilha o jargão publicitário,
que torna crime qualquer inquisição

No entanto, num futuro utópico, não será mais preciso ostentar em
emblemáticas camisetas,o tom do sangue :

Em punhos cerrados
não há falhas:
Pátria de canalhas!

À Esquerda -Maiakovski

À Esquerda Aos marinheiros russos(1918)

Em frente,marche!Basta de falar!
O tempo dos oradores já passou
Hoje tem a palavra
O Camarada Mauser!
Não há outra lei senão a natureza.
Somente Adão e Eva estão com a verdade.
Abaixo as leis,abaixo as cadeias!

Fustiguemos a carroça da história!
À esquerda,à esquerda,à esquerda!
Em frente,à conquista
dos Oceanos!
Tendes canhões em vossos navios de aço.
Já esquecestes como os fazer falar?
Que a coroa abra uma goela
quadrangular,
que o leão britânico ruja
que importa?
A comuna está em marcha
e manterá a vitória!
À esquerda,à esquerda,à esquerda!

Aqui é a sombra e a morte,mas lá longe
do outro lado das montanhas
o sol se levantou sobre um mundo novo.
Lá,além das planícies,
o solo estremece sob os passos inimeráveis
de homens impávidos e livres.
Camaradas,nós somos um rochedo de granito.
Os bandidos da Entente se arremessam contra ele.
Mas nada abaterá a Rússia Soviètica.
À esquerda,à esquerda,à esquerda!
Eles não puderam furar os olhos atilados da águia
que olha e compreende as lições do passado.Avante pois,meu povo,e já que o pegaste
estrangula teu carrasco!
A trombeta dos bravos já soou o alarme.
Nossos estandartes aos milhares avermelham o céu.
Só a rota dos traidores é que conduz à direita.
À esquerda,à esquerda,à esquerda!