Fado Atroz(Soneto dedicado a Zé do Caixão)

Zé do Caixão-coffin Joe
Zé do Caixão-coffin Joe

Lá vem encarnado em manto atro
Os vestíbulos da aurora bestial
Jorram as pragas num delírio anormal
Arrebatando egos ao jugo tártaro

Cedeu o lugar da’lma ao betume
A epífora amargurada de Josefel
Há de crivar na idolatria seu fel
Na busca pelo súpero perfume

Da fêmea em seu eugênico papel
Acima da metafísica o EU
Jazei inexorável Zé és brado infamo

Metamorfoseando um algoz cruel
Ostenta as insígnias de quem
O status quo de encarnar o diabo!

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EPITÁFIO PARA UM AMIGO IMAGINÁRIO

Como forjar o arrepiou da pele frente às gotas de chuva?
Como forjar  coragem  frente às barbas do  medo?
Como esquecer da falta de ar ao engatilhar o cobiçado beijo?
Como esquecer o cheiro do sexo impregnado mesmo após o banho?

Há tantas coisas que podem incitar a  vertigem;
Até mesmo para um amigo imaginário, uma sombra.
Há tantas coisas que podem ludibriar a lucidez;
Até  mesmo para um cônego, um estandarte;

Mas não um daqueles confeccionados em manufatura
Urdida  pelo tear da aliciação, aquele de inerme mote.
E sim aquele trançado a partir  do fidalgo linho
Que por persistência da vocação é emplumado.

Como poupar-se das gafes ao encontro do auto-conhecimento?
Como poupar-se  da frustração á espreitar o encalço da fortuna?
Como confiar na fresta entreaberta entre a cela e a fuga?
Como confiar na areia que assovia pelos vértices da ampulheta?

Há tantos segredos incrustados entre o riacho e a relva;
Até mesmo para a enxurrada que á ambos farta.
Há tantos ressentimentos á fecundar desventuras;
Até mesmo para um infausto que julgou todas desbravar.

Um soldado iconoclasta, centelha da submissão;
Entrincheirado nos poços de enxofre,
Vomitados de lucíferas bocarras,
Arrebatadas da humana ostentação.

Como deixar para trás o aconchego do lugar comum?
Como deixar diminuído o inelutável?
Como ser o algoz da própria assunção?
Como ser agente e não apenas recordação?

*baseado nos poemas e na vida de Fernando Pessoa

Fabio R.Vieira

Roteiro(Ivan P. Santos)

Abriu-se uma página branca
Límpida, neve sêca, vazia, leve
Eu, o preto, a tinta, o verbo, o frio

Me esparramo no seu limite, nessa alva-pele
Querendo fazer mímica, ter a feia beleza de Caetano
Ser todos tons e sons de mil chuvas em um outono

E penso, e penso, e penso, em escrever num canto
A sua imagem que me cega e me aterroriza num encanto
Petrificando-me os músculos da mão querendo escrever; Eu te amo

Mas, eu não te amo como sê tu fosses, um anjo ou visão
Não te amo como sê tu estivesses nua ou na Lua
Ou princesa ou quaresma, nem mesmo se fosse Gabriela

Eu não te amo, como sê tu fosses uma pérola incerta
Como se tu fosses Luanda, marinha ou abelha
Que procura a eufória do mel das flores presenteiras

Eu não te amo, como sê tu fosses um dia feriado
Nos veraneios de praia deserta ou abandonada
Eu não te amo como sê tu fosses um Fevereiro ou fantasma

Eu, meu sonho, é que tu sonhas, que sonhamos
Juntos, grudados, dividindo um mesmo estático espaço
Como no cinturão de Saturno, etérico elo mágico

E acendo uma vela pela tua alma de estrela
Minha guia, conselheira, minha musa inspiradora
Onde estas é mais alto que minhas palavras aladas

Com a folha ainda branca esperando o meu vazio
Fica cheia de palavras pensadas e não escritas
Dos poemas ausentes do meu delírio humano

Tu és uma deusa, uma núvem

Eu…

Em preto, o branco.

Um ator, um escritor ou um roteiro.

Que no fim de um milhão de noites, escrevo

Eu te amo.

———-

POEMA DE AUTORIA DO AMIGO IVAN SANTOS

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Prologo
Aos potentores do credo destino epístola!
Dum agnóstico trazendo as notas d’lém crença!

I

Já aportaram as naus e não me tragaram a gargântua
Nem brumas ou demônios ceifaram a tripulação
Por isso decifrei calúnias e desvencilhei amarras
Ao desposar a ciência, abdicando da promessa
Feita por fortuna á senil mística!

Sim, eclesiásticos!Anunciem que viuvou!
Seu decrépito abraço as hierarquias do Panteão!
E que também expirou a validade do seu Messias
Por isso aconselhem-á eutanásia!

Pois, nestas matas conforta-me o colo duma prenda lógica.
As ventanas e os tapumes não censuram a face púbere
Das metodologias, formulações e evidências!

Com isso esculpo-me incrédulo, ateu, herege ou fatalista!
Como convenha assim nomear-me, de imediato a tua vontade!

Enquanto condecoro á meu general o empirismo!
O imediatismo que os sentidos devoram!

O TEMPO SEMPRE MUDA ALGO EM NÓS

( Paulo Renato C. Rico )

Tem pessoas que dizem que sou tão frio e calado,
De qualquer forma, eu não me importo,
Suas vidas eu vejo todas enjauladas,
Sinto-me uma pessoa envelhecida, o tempo muda,
Por anos arrastei meu coração e agora eu o tirei da sarjeta.
 
Quando as coisas acontecem, não sei o por quê,
Mas, eu sempre estou lá,
Tenho o medo e a insegurança em minhas mãos,
Lágrimas de tristeza saltam de meus olhos,
A cada momento percorro por ruas estranhas, tento fugir.
 
O dia chega e todos querem me tocar,
Não sei mais quem sou,
Parece que o tempo matou todos os meus vestígios e
O meu coração despedaçou-se em vão.
 
O céu anda ao meu lado, tentando me agarrar e
A ignorância sempre vêm jogar sua maldade,
Eu brilho muito mais, não é nenhuma ilusão e
Meu coração despedaçou-se diante dos feitiços.
 
Tenho percebido o que significa solidão,
Houve tempos em que dava muito e recebia pouco,
E o dia chega cedo ou tarde,
Tive de ir embora sem dizer adeus.
 
Não posso culpar ninguém por eu ter me enganado,
Talvez, eu não soubesse trata-los como deveria,
Eu venho com o vento e vou com a poeira,
Nunca estou no mesmo lugar,
Minha casa sempre muda de direção,
Os fatos surgem e eu me escondo como numa solitária.
 *
Paulo Renato

© 2008 Todos os direitos reservados.

De Repente

Paulo Renato C.Rico

O que há além daquilo do que eu posso enxergar?

Muitas respostas são incertas e sem direção,

E no meu caminho tento me livrar da inconsciência,

Descobri que este mundo, do jeito que é, me dá insatisfação,

Tenho tentado muitas coisas, é preciso paciência para

Desapegar-se dos bens que me faz torturar.

Dizem que eu devo ser alguém melhor,

Mas, não posso ser nada mais além do que sou,

É tudo tão frio e ignorante de nossa parte

Querer encontrar em outras pessoas o que falta em nós,

Isto não é o que somos, isto é ser egoísta,

E o amor sempre foi assim.

De repente iluminou-se a escuridão dentro de mim,

Houve tempos difíceis de uma falsa conclusão,

Mas, tive tempo de perceber o que havia de errado,

As pessoas me ensinaram a ser aquilo o que não era,

Agora é diferente, está tudo guardado na mente,

Eu faço minha parte e tudo muda tão…de repente.

© 2008 Todos os direitos reservados.

O Rascunho

Mais um ovo engolido com casca e tudo
Uma oração recitada ao contrário do infinito
Nosso irmão mais velho, sábio e caído.

Mantém o santo santificado
Mantém o sujo acorrentado
Anjo de luz em trevas, o primeiro pecado.

Não é tão feio, o diabo
Não é tão ignorante dos fatos
Três O temem, em cada quatro.

Não se fala em teu nome de noite
Homens fogem de ti, como tu foges da cruz!
O quê vem à tona é o porquê da luz!

Lúcifer, o quê te fez cair, tropeçar, invejar…?
Os homens e seus escrementos
Pobre diabo, pobre diabo.

Sem dinheiro, um coitado !?
Com chifre e rabo e sem corpo
Confuso, perdido e abandonado.

Mas esperem, minha poesia não é apologista
Não é hora de Apolo ainda, porque a estória continua!
De onde vem o Diabo?

Não é orfão o danado; Como foi educado ?
Em escolas planetárias, em Faculdades Celestiais
Com Mestrados em Universidades de Galáxias Siderais

Gerente estagiário na Via-Láctea, monitorando vidas microscópicas
Responsável pelas metamorficas Células-Troncos mutar-se em Dinosauros
Pelos cometas que ameaçaram nossas órbitas

Mas na revolta partidária de direita
Duvidou dos planos da Celestial Monarquia
Inventou a Revolução demoníaca e democrática

Um segundo reinado, onde Lúcifer é Mandatário
Com seus ideais democráticos passaram a ser divulgados
Pelas cobras que são políticos desfarçados…

Contaminou o Laboratório Humano com idéias libertínas
– Podes fazer o quê queres!; Disse ao homem
– Teu futuro é infinito. É tua força, é teu voto, é tua sina…

Mas disse o Rei numa Declaração Cósmica
Meu Trono indivisível, é eterno
Que crie-se uma República do Inferno

Fim do primeiro ato!

(a ser continuado…)